Com o coração em paz
Entrevista com Joseph Han Zhi-hai, bispo na China sem o reconhecimento do governo de Pequim: “Venho de uma família que conhece Jesus há quatrocentos anos. Meu pai e minha mãe me batizaram oito dias depois que nasci. Sabiam que a Igreja pede aos pais que logo batizem seus filhos”
Entrevista com Joseph Han Zhi-hai por Gianni Valente
Lanzhou é uma das cidades mais poluídas do mundo. Em certos dias, na cidade mais importante da província chinesa norte-ocidental de Gansu, a neblina é tão densa que não dá para ver nem a montanha de Lanshan, que se eleva poucos quilômetros ao sul. Ao contrário, o olhar de Joseph Han Zhi-hai, quarenta e seis anos, arcebispo dessa metrópole que margeia o rio Amarelo, continua a ser límpido e agudo, mesmo quando se detém na passagem delicada e controvertida que a catolicidade chinesa vem vivendo.
Han foi ordenado bispo em 2003. Os funcionários políticos locais e nacionais ainda não reconheceram oficialmente sua ordenação episcopal. Mas sua condição de sucessor dos apóstolos privado de “certificação” governamental não lhe impede de agir e muito menos de testemunhar a liberdade própria de quem caminha com o coração em paz na mesma fé dos apóstolos. Ele diz de si mesmo: “Venho de uma família que conhece Jesus há quatrocentos anos. Meu pai e minha mãe me batizaram oito dias depois que nasci. Sabiam que a Igreja pede aos pais que logo batizem seus filhos”.

Joseph Han Zhi-hai durante um batismo
JOSEPH HAN ZHI-HAI: Morávamos num vilarejo a duzentos quilômetros de Lanzhou. Não era um povoado católico, mas a perseguição também tinha chegado até lá. Durante aquele tempo, meus pais e meus parentes mantiveram sua fé no íntimo de seu coração, sem mostrá-la em público, nem com o simples fato de ir à missa. Não era possível agir de modo diferente. Por sorte, a nossa casa era um pouco distante das outras. Para nós era mais fácil continuar a rezar, até mesmo juntos. Meu avô nunca deixou de repetir orações em família. Foi assim que nos preservou na fé.
Depois, quando cresceu, quais foram as outras pessoas importantes que o senhor encontrou ao longo do caminho?
Certamente padre Filipe, que mais tarde, em 1981, se tornaria bispo de Lanzhou e me ordenaria sacerdote. Ele havia sido libertado em 1978, depois de trinta anos de prisão e isolamento, e desde aquele dia, assim que recuperou a liberdade, sem um só lamento recomeçou de imediato a anunciar o evangelho, percorrendo vilas e campos. Passava o dia todo fora, visitando os cristãos da região, casa por casa, rezando a missa, rezando com eles e confortando a todos. Na época, eu era um jovem estudante. Olhando para ele, nasceu também em mim o desejo de me tornar sacerdote. Mas não existia nenhum seminário na época. Íamos por aí procurando os poucos e velhos manuais e livros de teologia e de doutrina que tinham escapado da destruição. Estudávamos com o pouco que conseguíamos encontrar. Depois o governo permitiu a reconstrução das igrejas. E então as famílias se encontravam para erguer juntas suas capelas e paróquias. E assim a fé voltava a florescer.
Se compararmos aquele período ao tempo presente, o que mudou na vida cotidiana dos católicos?
Hoje vejo muita abertura, há mais liberdade que naquela época. Nas nossas comunidades ainda há muita fé, mas vemos também nos jovens uma fragilidade ligada de certa forma ao novo materialismo que marca a sociedade. O risco de dispersão está mais ligado ao consumismo e ao materialismo da vida moderna que às dificuldades nas relações com o governo.
E como o senhor trabalha com os jovens e as crianças?
Trabalhamos sobretudo com os estudantes pré-universitários. Criamos grupos de estudos nos períodos de férias. Mas o que conta são as relações pessoais com cada um, mais que as iniciativas coletivas.
Como e quanto o senhor se tornou sacerdote?
Aconteceu em 1994. Éramos cinco recebendo a ordenação sacerdotal pelas mãos do bispo Filipe. Entre nós, nenhum tinha frequentado os seminários reabertos na China sob o controle do governo. Eu recebi as lições fundamentais de um leigo que conhecia teologia.
Alguns anos após a morte de Filipe, o senhor mesmo se tornou bispo. Mas foi ordenado sem receber a aprovação e a permissão dos órgãos do governo.
Estávamos em janeiro de 2003. Eu já tinha percebido, havia algum tempo, que a divisão que existe na China entre bispos e comunidades “oficiais” e “clandestinas” não tinha sentido. A maioria dos bispos eleitos segundo os procedimentos desejados pelo governo tinha sido legitimada pela Santa Sé e estava também em comunhão com o Papa. Por isso, me pareciam ultrapassadas e arquiváveis as velhas indicações que circulavam na Igreja, exortando a evitar as celebrações eucarísticas conjuntas com os padres e os bispos que aceitavam colaborar com o governo.
E então o senhor não guardou esses pensamentos para si mesmo...
Poucos meses depois da minha ordenação, escrevi uma carta aberta para convidar a todos os meus irmãos bispos a libertar os católicos chineses dessa divisão. A coisa mais simples era confessar com serenidade e coragem a nossa comunhão de fé com o Papa. Assim poríamos de lado equívocos inúteis e suspeitas danosas.
Hoje, em relação ao início da divisão, as coisas não mudaram muito.
Na minha opinião, para ver os fatos como são de verdade, é preciso fazer uma distinção. A maioria esmagadora dos bispos ordenados segundo as práticas desejadas pelo governo estão em comunhão com Roma, hoje mais do que naquela época. Ninguém quer realmente fazer uma Igreja chinesa separada da Igreja universal. Os condicionamentos fazem parte da situação política em que nos encontramos.
![A cidade de Lonzhou, atravessada pelo rio Amarelo [© Corbis]](http://www.30giorni.it/upload/articoli_immagini_interne/48-12-012.jpg)
A cidade de Lonzhou, atravessada pelo rio Amarelo [© Corbis]
Dentro da comunidade clandestina há setores extremistas que não aceitam nenhum diálogo e condenam os outros. Mesmo entre aqueles que são registrados nas estruturas da política religiosa governamental há alguns que procedem no caminho errado. Mas estou certo de que a esmagadora maioria deseja e espera a plena comunhão pública e visível de todos aqueles que pertencem à Igreja Católica da China.
Como convém comportar-se em relação às pretensões do governo?
Eu aproveitei novos espaços que se abriram. Se evito o conflito com o governo, posso dedicar mais energias e aproveitar mais oportunidades para anunciar o evangelho a mais pessoas. Por isso, na minha opinião, quando é possível, convém que os bispos saiam da condição de chamada clandestinidade, tomem consciência da situação atual e tenham uma postura de diálogo e não de conflito com o governo.
Qual é o efeito mais grave da divisão entre os católicos?
O fato de não compartilharem a Eucaristia, acusando-se mutuamente. Pois, se confessamos a mesma fé, só o fato de comungar do mesmo cálice do Corpo e do Sangue de Nosso Senhor pode fazer florescer outra vez a unidade e a comunhão. A Eucaristia é a fonte dessa unidade. Se desaparece essa fonte sacramental, a unidade não pode renascer por vontade dos homens e nem pelos chamados de atenção e pelas indicações que vêm do exterior.
Nem as que vêm do Vaticano?
Às vezes parece que pensam que nós aqui na China não ouvimos e não seguimos Jesus. Isso está errado. É preciso partir do fato de que aqui na China já existe a Igreja de Cristo. A Igreja una, santa, católica e apostólica, tal como a confessamos no Credo. A nossa comunhão só pode florescer se o próprio Jesus, também aqui na China, alimenta e mantém unida a sua Igreja com os seus sacramentos, mantendo nela a fé dos Apóstolos. Faz parte dessa fé também a comunhão com o sucessor de Pedro e a obediência ao seu ministério, tal como foi desejado por Jesus. Do contrário, se não houvesse isso, se aqui na China não houvesse entre o povo e seus pastores a fé católica, seria inútil fazer discursos ou oferecer disposições disciplinares sobre essas coisas.
Esse reconhecimento inspirou o olhar para a Igreja na China expresso na carta que Bento XVI dirigiu a todos os católicos chineses em 2007. Aquele pronunciamento do Papa não respondeu de modo claro às questões que o senhor havia apresentado em sua carta aberta de quatro anos antes?
A carta do Papa foi uma resposta importantíssima a muitos problemas que atormentam a Igreja na China. Nós a lemos com emoção, muitos não esperavam uma carta tão clara e ficaram surpresos. Mas com o passar do tempo alguns acrescentaram outras coisas, outros comentários, quiseram defender interpretações parciais. E então, ao menos em parte, aquele pronunciamento perdeu a sua força.
Dizem que algumas autoridades políticas locais impediram a difusão daquela carta.
Em algumas regiões, houve proibições, mas na prática não funcionaram. A carta circulava do mesmo jeito. No entanto, em algumas províncias, como Fujian e Hebei, houve comunidades eclesiais que receberam a carta com certa reserva.
Na fase que se seguiu à publicação da carta do Papa, cresceu o número de ordenações de bispos reconhecidos paralelamente tanto pela Santa Sé quanto pelas autoridades civis chinesas. Como o senhor avalia esse modus procedendi experimentado sobretudo entre 2009 e 2010?
O governo busca pôr em prática a sua política. Quer manter um certo controle sobre os procedimentos para as nomeações episcopais. Na minha opinião, se eles aprovam a ordenação de bispos que têm também o mandato apostólico do Papa, convém proceder dessa forma. Se os candidatos identificados são dignos e se mostram conscientes das responsabilidades a que são chamados, é preciso evitar objeções e complicações inúteis.
O fato é que a fase das ordenações com “consenso tácito paralelo” se interrompeu quando o poder civil impôs três ordenações episcopais ilegítimas. Houve a excomunhão automática dos bispos ilegítimos, que a Santa Sé chegou a divulgar. Como o senhor vê essa situação?
Se alguém se deixa ordenar bispo mesmo sabendo que a Santa Sé é contrária à sua ordenação, é inevitável que receba também as penas canônicas. Mas é preciso sempre avaliar as circunstâncias caso a caso, levando em conta a situação particular em que nos encontramos, e as pressões que pesam sobre os bispos chineses.
![Fiéis durante a missa de Natal numa igreja em Pequim <BR>[© Getty Images]](http://www.30giorni.it/upload/articoli_immagini_interne/54-12-012.jpg )
Fiéis durante a missa de Natal numa igreja em Pequim
[© Getty Images]
É preciso dizer, antes de mais nada, que aqui na China nós estamos em comunhão com o bispo de Roma. Nós também somos bispos católicos, e sabemos o que significa tudo isso. Mas, sendo bispos católicos na China, vivemos neste país, onde existe um governo que tem determinada política. Hoje, se não aderimos a essa política, as consequências não são tão graves como antigamente. Mas tudo se torna mais difícil: entramos numa situação de conflito que torna mais difícil a vida cotidiana da Igreja e o trabalho pastoral normal. Devemos levar isso em conta, justamente em virtude da tarefa que temos.
Como o senhor manifesta concretamente a sua comunhão com o sucessor de Pedro?
Quando colaboro com o governo repito sempre abertamente e com força que para nós, católicos, é essencial a nossa comunhão com o Papa. Faz parte da nossa catolicidade. Mas devo dizer também que eles aceitam isso. Ou de qualquer forma não têm objeções sobre isso. Eles seguem a sua política, o que lhes interessa é o aspecto político. As coisas que para nós são de importância crucial, como a fidelidade ao Papa como guardião da Tradição, para eles não parecem interessar muito.
O fato é que o senhor ainda se encontra na condição de bispo “não oficial”, não reconhecido como bispo pelos órgãos do governo. Alguma coisa vem sendo feita quanto a isso?
Não existe outro bispo “oficial” em Lanzhou, aprovado pelo governo. Há algum tempo os membros do governo me repetem que logo me reconhecerão como bispo da diocese, mas ainda não estabeleceram um momento preciso para isso.
Se isso acontecer, teme que haja equívocos e má vontade na comunidade eclesial?
Estamos todos unidos em torno disso. Todos compartilham o mesmo pensamento. Todos veem que o reconhecimento por parte do governo não contradiz e não impede a comunhão com o Papa e com a Igreja universal.
Quando isso acontecer, o senhor deverá ter contatos com a Associação Patriótica, o organismo de controle inspirado pelo regime. Como acha que seriam as relações com a AP?
Atualmente o chefe da AP é ainda um leigo. No futuro, esse papel poderia ser assumido por um dos sacerdotes da diocese, de modo a gerir tudo de maneira amigável.
O que o senhor diria ao Papa, para esclarecer-lhe a situação chinesa?
O momento é confuso. E não pode continuar assim. No futuro, seria útil levar em conta duas coisas. Em primeiro lugar, que nós queremos estar em comunhão com o Papa, queremos ser um só coração com ele. E em segundo lugar que precisamos ser claros ao indicar o que está errado e o que deve ser corrigido, entre as anomalias da condição em que nos encontramos. Mas, ao fazer isso, nunca devemos perder os contatos. É preciso manter abertos os canais que servem para que continuemos a nos expressar. Pois há situações que só se podem resolver com o diálogo.
Talvez o senhor possa logo encontrar o Papa, quando for convocado a Roma para o Sínodo dos Bispos.
Ficaria feliz com isso. Mas não creio que consiga ir...
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