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CRISTIANISMO
Extraído do número 12 - 2011

A oração, os milagres, a virgindade de Maria, a humanidade de Jesus



Bento XVI no Advento e no Natal


Audiência Geral
quarta feira, 7 de dezembro de 2011

 

Os pequeninos

 

<I>O nascimento de Jesus</I>, painel lígneo policromado da igreja de São Martinho, Zillis, Suíça

O nascimento de Jesus, painel lígneo policromado da igreja de São Martinho, Zillis, Suíça

Agora, interroguemo-nos: a quem deseja o Filho revelar os mistérios de Deus? No início do Hino, Jesus manifesta a sua alegria, porque a vontade do Pai consiste em manter estas coisas escondidas aos doutos e aos sábios, e em revelá-las aos pequeninos (cf. Lc 10, 21). Nesta expressão da sua oração, Jesus manifesta a sua comunhão com a decisão do Pai, que revela os seus mistérios a quantos têm um coração simples: a vontade do Filho é uma só com a do Pai.


A revelação divina não se realiza em conformidade com a lógica terrena, para a qual são os homens cultos e poderosos que possuem os conhecimentos importantes e que depois os transmitem às pessoas mais simples, aos pequeninos. Deus recorreu a um outro estilo: os destinatários da sua comunicação foram precisamente os “pequeninos”. Esta é a vontade do Pai, e o Filho compartilha-a com alegria.


Mas o que significa “ser pequenino”, simples? Qual é “a pequenez” que abre o homem à intimidade filial com Deus e ao acolhimento da sua vontade? Qual deve ser a atitude de fundo da nossa oração? Meditemos sobre o “Sermão da montanha”, onde Jesus afirma: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5, 8). É a pureza do coração, aquela que permite reconhecer o rosto de Deus em Jesus Cristo; é ter um coração simples, como o das crianças, sem a presunção daqueles que se fecham em si mesmos, pensando que não têm necessidade de ninguém, nem sequer de Deus.


No Evangelho de Mateus, depois do Hino de Júbilo, encontramos um dos apelos mais urgentes de Jesus: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e oprimidos, e Eu aliviar-vos-ei” (Mt 11, 28). Jesus pede-nos para ir ter com Ele, que é a verdadeira sabedoria, com Ele que é “manso e humilde de coração”; propõe “o seu jugo”, o caminho da sabedoria do Evangelho, que não é uma doutrina a aprender, nem uma proposta ética, mas uma Pessoa a seguir: Ele mesmo, o Filho Unigénito, em perfeita comunhão com o Pai.


Estimados irmãos e irmãs, considerámos por um momento a riqueza desta oração de Jesus. Também nós, com o dom do seu Espírito, podemos dirigir-nos a Deus, mediante a oração, com a confiança de filhos, invocando-o com o nome de Pai, “Abá”. Mas devemos ter o coração dos pequeninos, dos “pobres de espírito” (Mt 5, 3), para reconhecer que não somos auto-suficientes, que não podemos construir a nossa vida sozinhos, mas precisamos de Deus, temos necessidade de O encontrar e escutar, de lhe falar. A oração abre-nos à recepção do dom de Deus, à sua sabedoria, que é o próprio Jesus, para cumprir a vontade do Pai sobre a nossa vida e encontrar assim alívio nas dificuldades do nosso caminho.
Obrigado.

 

 

 

 

 

Solenidade da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

 

Nossa Senhora e a Igreja

A única armadilha da qual a Igreja pode e deve ter receio é o pecado dos seus membros

 

Na visão do Apocalipse há outro pormenor: sobre a cabeça da mulher revestida de sol há “uma coroa de doze estrelas”. Este sinal representa as doze tribos de Israel e significa que a Virgem Maria está no centro do Povo de Deus, de toda a comunhão dos santos. E assim esta imagem da coroa de doze estrelas introduz-nos na segunda grande interpretação do sinal celeste da “mulher revestida de sol”: além de representar Nossa Senhora, este sinal encarna a Igreja, a comunidade cristã de todos os tempos. Ela está grávida, no sentido de que leva no seu seio Cristo e deve dá-lo à luz para o mundo: eis a labuta da Igreja peregrina na terra, que entre a consolação de Deus e as perseguições do mundo deve levar Jesus aos homens.


É precisamente por isto, porque leva Jesus, que a Igreja encontra a oposição de um adversário feroz, representado na visão apocalíptica por “um grande dragão vermelho” (Ap 12, 3). Este dragão procurou em vão devorar Jesus – o “filho varão, destinado a governar todas as nações” (12, 5) – em vão porque Jesus, através da sua morte e ressurreição, subiu para Deus e sentou-se no seu trono. Por isso o dragão, derrotado de uma vez para sempre no céu, orienta os seus ataques contra a mulher – a Igreja – no deserto do mundo. Mas em todas as épocas a Igreja é apoiada pela luz e pela força de Deus, que a alimenta no deserto com o pão da sua Palavra e da sagrada Eucaristia. E assim em cada tribulação, através de todas as provas que encontra ao longo dos tempos e nas diversas partes do mundo, a Igreja sofre a perseguição, mas resulta vencedora. E precisamente desta forma a Comunidade cristã é a presença, a garantia do amor de Deus contra todas as ideologias do ódio e do egoísmo.


A única armadilha da qual a Igreja pode e deve ter receio é o pecado dos seus membros. De facto, enquanto Maria é Imaculada, livre de qualquer mancha, a Igreja é santa, mas ao mesmo tempo marcada pelos nossos pecados.


Por isso, também nós, sobretudo nesta celebração, não cessamos de pedir com confiança filial a sua ajuda: “Ó Maria, concebida sem pecado, intercede por nós que a ti recorremos”. Ora pro nobis, intercede pro nobis ad Dominum Iesum Christum!

 

 

 

 

 

Audiência Geral
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

 

A oração e os milagres

O Doador é mais precioso que o dom concedido; o dom é dado “por acréscimo”

 

<I>Jesus cura um coxo</I>, painel lígneo policromado da igreja de São Martinho, Zillis, Suíça

Jesus cura um coxo, painel lígneo policromado da igreja de São Martinho, Zillis, Suíça

Hoje gostaria de meditar convosco a respeito da oração de Jesus, vinculada à sua prodigiosa actividade de cura. Nos Evangelhos são apresentadas várias situações em que Jesus reza diante da acção benéfica e curadora de Deus Pai, que age através dele. Trata-se de uma oração que, mais uma vez, manifesta a relação singular de conhecimento e de comunhão com o Pai, enquanto Jesus se deixa envolver com grande participação humana na dificuldade dos seus amigos, por exemplo de Lázaro e da sua família, ou dos numerosos pobres e enfermos que Ele deseja ajudar concretamente.


Um caso significativo é a cura do surdo-mudo (cf. Mc 7, 32-37). A narração do evangelista Marcos – que há pouco ouvimos – demonstra que a acção curadora de Jesus está ligada a uma sua relação intensa, quer com o próximo – o doente – quer com o Pai.

 

Mas o ponto central deste episódio é o facto de que Jesus, no momento de realizar a cura, procura directamente a sua relação com o Pai. Com efeito, a narração diz que Ele, “levantando os olhos ao céu, suspirou” (v. 34). A atenção ao enfermo, o cuidado de Jesus para com ele estão ligados a uma profunda atitude de oração dirigida a Deus. E a emissão do suspiro é descrita com um verbo que no Novo Testamento indica a aspiração a algo de bom que ainda falta (cf. Rm 8, 23).

 

O conjunto da narração demonstra que o envolvimento humano com o enfermo leva Jesus à oração. Mais uma vez sobressai a sua relação singular com o Pai, a sua identidade de Filho Unigénito. Nele, através da sua pessoa, torna-se presente o agir curador e benéfico de Deus. Não é por acaso que o comentário conclusivo das pessoas, depois do milagre, recorda a avaliação da criação no início do Génesis: “Ele fez bem todas as coisas” (Mc 7, 37). Na obra curadora de Jesus sobressai de modo claro a oração, com o seu olhar voltado para o Céu. A força que curou o surdo-mudo é, sem dúvida, provocada pela compaixão por ele, mas provém do recurso ao Pai. Encontram-se estas duas relações: a relação humana de compaixão para com o homem, que entra em relação com Deus, tornando-se assim cura.

 

O Catecismo da Igreja Católica comenta assim a oração de Jesus na narração da ressurreição de Lázaro: “Apoiada na acção de graças, a oração de Jesus revela-nos como devemos pedir: antes de lhe ser dado o que pede, Jesus adere Àquele que dá, e se dá nos seus dons. O Doador é mais precioso que o dom concedido, é o “tesouro”, e é n’Ele que está o coração do Filho; o dom é dado “por acréscimo”“ (cf. Mt 6, 21; e 6, 33)”. Isto parece-me muito importante: antes que o dom seja concedido, aderir Àquele que doa; o doador é mais precioso que o dom. Por conseguinte, também para nós, além daquilo que Deus nos concede quando O invocamos, o maior dom que Ele nos pode oferecer é a sua amizade, a sua presença, o seu amor. Ele é o tesouro precioso que devemos pedir e conservar sempre.


Com a sua oração, Jesus deseja conduzir à fé, à confiança total em Deus e na sua vontade, e quer mostrar que este Deus, que amou de tal modo o homem e o mundo, que chegou a enviar o seu único Filho (cf. Jo 3, 16), é o Deus da Vida, o Deus que traz a esperança e é capaz de inverter as situações humanamente impossíveis.

 

 

 

 

 

Angelus
domingo, 18 de dezembro de 2011

 

A virgindade de Maria

Maria deseja que o Filho que vai nascer dela possa ser todo dom de graça

 

Em particular, gostaria de meditar brevemente sobre a importância da virgindade de Maria, isto é, do facto que concebeu Jesus permanecendo virgem.


No contexto do acontecimento de Nazaré há a profecia de Isaías. “Olhai: a jovem está grávida e dará um filho, por-lhe-á o nome de Emanuel” (Is 7, 14). Esta antiga promessa encontrou cumprimento superabundante na Encarnação do Filho de Deus. Com efeito, não só a Virgem Maria concebeu, mas fê-lo por obra do Espírito Santo, ou seja, do próprio Deus. O ser humano que começa a viver no seu seio assume a carne de Maria, mas a sua existência deriva totalmente de Deus. É plenamente homem, feito de barro – usando um símbolo bíblico – mas vem do alto, do Céu. O facto que Maria conceba permanecendo virgem é portanto essencial para o conhecimento de Jesus e para a nossa fé, porque testemunha que a iniciativa foi de Deus e sobretudo revela quem é o concebido. Como diz o Evangelho: “Por isso mesmo é que o Santo que vai nascer há-de chamar-se Filho e Deus” (Lc 1, 35). Neste sentido, a virgindade de Maria e a divindade de Jesus garantem-se reciprocamente.


Eis por que é tão importante aquela única pergunta que Maria, “muito perturbada”, dirige ao Anjo: “Como será isso, se eu não conheço homem?” (Lc 1, 34). Na sua simplicidade, Maria é muito sábia: não duvida do poder de Deus, mas quer compreender melhor a sua vontade, para se conformar de modo completo com ela. Maria é infinitamente superada pelo Mistério, mas ocupa perfeitamente o lugar que, no centro dele, lhe foi atribuído. O seu coração e a sua mente são totalmente humildes e, precisamente pela sua humildade singular, Deus espera o “sim” desta jovem para realizar o seu desígnio. Respeita a sua dignidade e a sua liberdade. O “sim” de Maria implica o conjunto de maternidade e virgindade, e deseja que tudo nela seja para glória de Deus, e o Filho que vai nascer dela possa ser todo dom de graça.

 

 

 

 

 

Audiência Geral
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

 

A manjedoura de Belém

 

Menino Jesus, detalhe da <I>Natividade</I>, Andrea Pisano, púlpito da Catedral de Sena

Menino Jesus, detalhe da Natividade, Andrea Pisano, púlpito da Catedral de Sena

Quando ouvimos ou pronunciamos, nas celebrações litúrgicas, este “hoje nasceu para nós o Salvador”, não usamos uma expressão convencional vazia, mas queremos dizer que Deus nos oferece “hoje”, agora, para mim, para cada um de nós, a possibilidade de O reconhecer e acolher, como fizeram os pastores em Belém, para que Ele nasça inclusive na nossa vida e a renove, ilumine e transforme com a sua Graça, com a sua Presença.


E, ainda são Leão Magno, noutra sua homilia de Natal, afirmava: “Hoje o autor do mundo foi gerado do seio de uma virgem: Aquele que fez todas as coisas tornou-se filho de uma mulher, por Ele mesmo criada. Hoje, o Verbo de Deus apareceu revestido de carne e, embora nunca tivesse sido visível aos olhos humanos, tornou-se também visivelmente palpável. Hoje, os pastores ouviram da voz dos anjos que nasceu o Salvador, na substância do nosso corpo e da nossa alma” (Sermo 26, In Nativitate Domini 6, 1: PL 54, 213).

 

Natal e Páscoa são ambos festas da redenção. A Páscoa celebra-a como vitória sobre o pecado e a morte: determina o momento final, quando a glória do Homem-Deus resplandece como a luz do dia; o Natal celebra-a como o entrar de Deus na história, fazendo-se homem para levar o homem a Deus: marca, por assim dizer, o momento inicial, quando se entrevê o clarão da alvorada. Mas precisamente como a aurora precede e já faz pressentir a luz do dia, assim o Natal já anuncia a Cruz e a glória da Ressurreição.

 

Contemplemos a gruta de Belém: Deus abaixa-se a ponto de ser colocado numa manjedoura, que já é prelúdio da humilhação na hora da sua paixão. O ápice da história de amor entre Deus e o homem passa através da manjedoura de Belém e do sepulcro de Jerusalém.

 

Vivamos o Natal do Senhor, contemplando o caminho do amor imenso de Deus, que nos elevou a Si através do Mistério da Encarnação, Paixão, Morte e Ressurreição do seu Filho, porque – como afirma santo Agostinho – “em [Cristo] a divindade do Unigénito fez-se partícipe da nossa mortalidade, a fim de que nós participássemos na sua imortalidade” (Epístola 187, 6, 20: PL 33, 839-840).

 

 

 

 

 

Santa Missa
sábado, 24 de dezembro de 2011

 

A humanidade de Jesus

No menino do estábulo de Belém, pode-se, por assim dizer, tocar Deus e acarinhá-Lo

 

A leitura que ouvimos, tirada da Carta do Apóstolo São Paulo a Tito, começa solenemente com a palavra “apparuit”, que encontramos de novo na leitura da Missa da Aurora: apparuit – “manifestou-se”. Esta é uma palavra programática, escolhida pela Igreja para exprimir, resumidamente, a essência do Natal. Antes, os homens tinham falado e criado imagens humanas de Deus, das mais variadas formas; o próprio Deus falara de diversos modos aos homens (cf. Heb 1, 1: leitura na Missa do Dia). Agora, porém, aconteceu algo mais: Ele manifestou-Se, mostrou-Se, saiu da luz inacessível em que habita. Ele, em pessoa, veio para o meio de nós. Na Igreja antiga, esta era a grande alegria do Natal: Deus manifestou-Se. Já não é apenas uma ideia, nem algo que se há-de intuir a partir das palavras. Ele “manifestou-Se”.

Mas agora perguntamo-nos: Como Se manifestou? Ele verdadeiramente quem é? A este respeito, diz a leitura da Missa da Aurora: “Manifestaram-se a bondade de Deus (…) e o seu amor pelos homens” (Tt 3, 4). Para os homens do tempo pré-cristão – que, vendo os horrores e as contradições do mundo, temiam que o próprio Deus não fosse totalmente bom, mas pudesse, sem dúvida, ser também cruel e arbitrário –, esta era uma verdadeira “epifania”, a grande luz que se nos manifestou: Deus é pura bondade. Ainda hoje há pessoas que, não conseguindo reconhecer a Deus na fé, se interrogam se a Força última que segura e sustenta o mundo seja verdadeiramente boa, ou então se o mal não seja tão poderoso e primordial como o bem e a beleza que, por breves instantes luminosos, se nos deparam no nosso cosmos. “Manifestaram-se a bondade de Deus (…) e o seu amor pelos homens”: eis a certeza nova e consoladora que nos é dada no Natal.


Deus manifestou-Se… como menino. É precisamente assim que Ele Se contrapõe a toda a violência e traz uma mensagem de paz. Neste tempo, em que o mundo está continuamente ameaçado pela violência em tantos lugares e de muitos modos, em que não cessam de reaparecer bastões do opressor e vestes manchadas de sangue, clamamos ao Senhor: Vós, o Deus forte, manifestastes-Vos como menino e mostrastes-Vos a nós como Aquele que nos ama e por meio de quem o amor há-de triunfar. Fizestes-nos compreender que, unidos convosco, devemos ser artífices de paz. Amamos o vosso ser menino, a vossa não-violência, mas sofremos pelo facto de perdurar no mundo a violência, levando-nos a rezar assim: Demonstrai a vossa força, ó Deus.

 

Natal é epifania: a manifestação de Deus e da sua grande luz num menino que nasceu para nós. Nascido no estábulo de Belém, não nos palácios do rei. Em 1223, quando Francisco de Assis celebrou em Greccio o Natal com um boi, um jumento e uma manjedoura cheia de feno, tornou-se visível uma nova dimensão do mistério do Natal. Francisco de Assis designou o Natal como “a festa das festas” – mais do que todas as outras solenidades – e celebrou-a com “solicitude inefável” (2 Celano, 199: Fontes Franciscanas, 787). Beijava, com grande devoção, as imagens do menino e balbuciava-lhes palavras de ternura como se faz com os meninos – refere Tomás de Celano (ibidem).


Para a Igreja antiga, a festa das festas era a Páscoa: na ressurreição, Cristo arrombara as portas da morte, e assim mudou radicalmente o mundo: criara para o homem um lugar no próprio Deus. Pois bem, Francisco não mudou, nem quis mudar, esta hierarquia objectiva das festas, a estrutura interior da fé com o seu centro no mistério pascal. Mas, graças a Francisco e ao seu modo de crer, aconteceu algo de novo: ele descobriu, numa profundidade totalmente nova, a humanidade de Jesus. Este facto de Deus ser homem resultou-lhe evidente ao máximo, no momento em que o Filho de Deus, nascido da Virgem Maria, foi envolvido em panos e colocado numa manjedoura. A ressurreição pressupõe a encarnação. O Filho de Deus visto como menino, como verdadeiro filho de homem: isto tocou profundamente o coração do Santo de Assis, transformando a fé em amor. “Manifestaram-se a bondade de Deus e o seu amor pelos homens”: esta frase de São Paulo adquiria assim uma profundidade totalmente nova. No menino do estábulo de Belém, pode-se, por assim dizer, tocar Deus e acarinhá-Lo.


Hoje, quem entra na igreja da Natividade de Jesus em Belém dá-se conta de que o portal de outrora com cinco metros e meio de altura, por onde entravam no edifício os imperadores e os califas, foi em grande parte tapado, tendo ficado apenas uma entrada com metro e meio de altura. Provavelmente isso foi feito com a intenção de proteger melhor a igreja contra eventuais assaltos, mas sobretudo para evitar que se entrasse a cavalo na casa de Deus. Quem deseja entrar no lugar do nascimento de Jesus deve inclinar-se. Parece-me que nisto se encerra uma verdade mais profunda, pela qual nos queremos deixar tocar nesta noite santa: se quisermos encontrar Deus manifestado como menino, então devemos descer do cavalo da nossa razão “iluminada”. Devemos depor as nossas falsas certezas, a nossa soberba intelectual, que nos impede de perceber a proximidade de Deus. Devemos seguir o caminho interior de São Francisco: o caminho rumo àquela extrema simplicidade exterior e interior que torna o coração capaz de ver. Devemos inclinar-nos, caminhar espiritualmente por assim dizer a pé, para podermos entrar pelo portal da fé e encontrar o Deus que é diverso dos nossos preconceitos e das nossas opiniões: o Deus que Se esconde na humildade dum menino acabado de nascer.
Quien quiere entrar hoy en la iglesia de la Natividad de Jesús, en Belén, descubre que el portal, que un tiempo tenía cinco metros y medio de altura, y por el que los emperadores y los califas entraban al edificio, ha sido tapiado en gran parte. Ha quedado solamente una pequeña abertura de un metro y medio. La intención fue probablemente proteger mejor la iglesia contra eventuales asaltos y, sobre todo, evitar que se entrara a caballo en la casa de Dios. Quien desea entrar en el lugar del nacimiento de Jesús tiene que inclinarse. Me parece que en eso se manifiesta una verdad más profunda, por la cual queremos dejarnos conmover en esta Noche santa: si queremos encontrar al Dios que ha aparecido como niño, hemos de apearnos del caballo de nuestra razón «ilustrada». Debemos deponer nuestras falsas certezas, nuestra soberbia intelectual, que nos impide percibir la cercanía de Dios. Hemos de seguir el camino interior de san Francisco: el camino hacia esa extrema sencillez exterior e interior que hace al corazón capaz de ver. Debemos bajarnos, ir espiritualmente a pie, por decirlo así, para poder entrar por el portal de la fe y encontrar a Dios, que es diferente de nuestros prejuicios y nuestras opiniones: el Dios que se oculta en la humildad de un niño recién nacido.

 

 

 

 

 

Mensagem Urbi et orbi
domingo, 25 de dezembro de 2011

 

Vinde salvar-nos!


Deus é o Salvador, nós aqueles que se encontram em perigo. Ele é o médico, nós os doentes

 

Bento XVI durante a santa missa da noite de Natal 2011 [© Osservatore Romano]

Bento XVI durante a santa missa da noite de Natal 2011 [© Osservatore Romano]

O Filho de Maria Virgem nasceu para todos, é o Salvador de todos.
Numa antífona litúrgica antiga, Ele é invocado assim: “Ó Emanuel, nosso rei e legislador, esperança e salvação dos povos! Vinde salvar-nos, Senhor nosso Deus”. Veni ad salvandum nos! Vinde salvar-nos!

E é isto mesmo o que significa o nome daquele Menino, o nome que, por vontade de Deus, Lhe deram Maria e José: chama-se Jesus, que significa “Salvador” (cf. Mt 1, 21; Lc 1, 31). Ele foi enviado por Deus Pai, para nos salvar sobretudo do mal mais profundo que está radicado no homem e na história: o mal que é a separação de Deus, o orgulho presunçoso do homem fazer como lhe apetece, de fazer concorrência a Deus e substituir-se a Ele, de decidir o que é bem e o que é mal, de ser o senhor da vida e da morte (cf. Gn 3, 1-7). Este é o grande mal, o grande pecado, do qual nós, homens, não nos podemos salvar senão confiando-nos à ajuda de Deus, senão gritando por Ele: “Veni ad salvadum nos – Vinde salvar-nos!”.


O próprio facto de elevarmos ao Céu esta imploração já nos coloca na justa condição, já nos coloca na verdade do que somos nós mesmos: realmente nós somos aqueles que gritaram por Deus e foram salvos (cf. Est [em grego] 10, 3f). Deus é o Salvador, nós aqueles que se encontram em perigo. Ele é o médico, nós os doentes. O facto de reconhecer isto mesmo é o primeiro passo para a salvação, para a saída do labirinto onde nós mesmos, com o nosso orgulho, nos encerramos. Levantar os olhos para o Céu, estender as mãos e implorar ajuda é o caminho de saída, contanto que haja Alguém que escute e possa vir em nosso socorro.

Por isso, amados irmãos e irmãs de Roma e do mundo inteiro, neste Natal de 2011, dirijamo-nos ao Menino de Belém, ao Filho da Virgem Maria e digamos: “Vinde salvar-nos!”.

 

 

 

 

 

Festa de santo Estêvão protomártir
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

 

O martírio secreto

 

Aqueles que praticam os mandamentos do Senhor prestam-lhe testemunho

e invocam fielmente o nome do Senhor

 

No dia seguinte à solene liturgia do Natal do Senhor, hoje celebramos a festa de Santo Estêvão, diácono e primeiro mártir da Igreja. O historiador Eusébio de Cesareia define-o o “mártir perfeito” (Die Kirchengeschichte V, 2, 5: GCS II, 1, Lipsia 1903, 430), porque está escrito nos Actos dos Apóstolos: “Cheio de graça e força, Estêvão fazia extraordinários milagres e prodígios entre o povo” (6, 8).

 

Depois da geração dos Apóstolos, os mártires adquirem um lugar de primeiro plano na consideração da Comunidade cristã.

 

Queridos amigos, a verdadeira imitação de Cristo é o amor, que alguns escritores cristãos definiram o “martírio secreto”. A este propósito são Clemente de Alexandria escreve: “Aqueles que praticam os mandamentos do Senhor prestam-lhe testemunho em cada acção, porque fazem o que Ele quer e invocam fielmente o nome do Senhor” (Stromatum IV, 7, 43, 4: SC 463, Paris 2001, 130). Como na antiguidade, também hoje a adesão sincera ao Evangelho pode exigir o sacrifício da vida e muitos cristãos em várias partes do mundo estão expostos a perseguições e por vezes ao martírio. Mas, recorda-nos o Senhor, “quem perseverar até o fim será salvo” (Mt 10, 22).

 

 

© Copyright 2011 – Libreria Editrice Vaticana



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