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TESTEMUNHOS
Extraído do número 05 - 2005

Os testemunhos de vinte e um cardeais sobre o novo papa



Os testemunhos de vinte e um cardeais. II


Justin Francis Rigali

Justin Francis Rigali

Preside na caridade

do cardeal Justin Francis Rigali
arcebispo da Filadélfia
No seu primeiro discurso o Santo Padre expressou dois sentimentos. Por um lado a sua inadequação, o ser humanamente estremecido; por outro confessou a sua confiança, “in Te, Domine, speravi” e admitiu que a confiança é maior do que o temor. Papa Bento tem confiança de que foi o Senhor a chamá-lo através dos cardeais, mas eu diria também através de todas as orações da Igreja, das pessoas que apoiaram os cardeais com a solidariedade da sua oração.
Ele está confiante de que o Senhor o ajudará, que ini­ciará nele uma boa obra segundo as palavras de São Paulo. A Igreja está cheia de esperança; o Senhor chamou, o Senhor dará a sua graça, ajudará Papa Bento a levar a termo o trabalho que iniciou na sua vida, no seu ministério sacerdotal. Por quantos anos, quem pode saber?O Papa já manifestou sua vontade de continuar no caminho do Concílio Vaticano II, e isso é muito bom, porque foi o próprio Papa João XXIII quem expressou o objetivo do Concílio. Em 8 de outubro de 1962 eu estava presente quando Papa João disse que o Concílio tinha sido convocado principalmente “para que o sagrado depósito da fé seja custodiado e apresentado com maior eficácia”. Havia também outros objetivos, certamente muito importantes, como o ecumenismo, mas aquele era o principal..Papa Ratzinger tem uma grande experiência, porque João Paulo II designou-o como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e em todos estes anos trabalhou para a fé da Igreja, com a dedicação de custodiá-la e apresentá-la de modo mais eficaz. Como papa agora pode continuar e custodiar a fé, e para ele é fácil prometer fidelidade ao Concílio, porque em todos estes anos viveu a realização do Concílio. Essa é a tarefa à qual sempre se dedicou. Em relação ao ecumenismo, a realidade da unidade visível na fé e no amor de todos os cristãos será objeto da sua solicitude; e sob a graça do Espírito Santo, o Papa deveria levar a termo aquilo que era tão desejado por João Paulo II e Paulo VI: recordemos o testamento de Paulo VI no qual pedia que o trabalho do ecumenismo fosse adiante. O novo Papa tem consciência de que é o Bispo de Roma, sabe que a tarefa é de ser “episcopus catholicae Ecclesiae”, Bispo da Igreja Católica, que significa ser bis­po de todos os bispos; eis portanto a colegialidade, também já mencionada. Bem consciente, ou seja, que sim, ele como sucessor de Pedro possui a plenitude do sagrado poder, e porém, de modo misterioso, este poder pleno é compartilhado também pelos bispos: pois o Senhor confiou a Sua Igreja a Pedro junto com os bis­pos, o poder é exercido “cum Petro e sub Petro”.A sua preocupação, segundo toda a tradição desde as origens, mesmo antes do Concílio, será a de presidir na caridade. O Papa tem esse ideal, presidir na caridade, e é muito importante a colegialidade efetiva com os bispos. Veremos a continuidade, veremos o que é o papado, porque os papas recentes nos demonstraram o que significa presidir na caridade, receber os bispos e receber o povo de Deus, por isso milhões e milhões de católicos sentem-se em casa quando estão em Roma. Mas cabe ao bispo de Roma envolvê-los todos na fé e na caridade. E assim será.E todos os desafios do mundo? Veremos que o Papa continuará a pregar o magistério social da Igreja, porque isso é o que Jesus ensinava. Mas Jesus também ia por todos os lugares fazendo o bem, e a Igreja recebeu d’Ele essa herança. João Paulo II dizia que o homem, com todas as suas exigências, com todo o seu ser, é o caminho para a Igreja, e a Igreja existe para que todo o homem tenha a plenitude da vida humana e cristã.Papa Bento recordou que ele inicia seu ministério neste ano dedicado à Eucaristia, um ano, segundo João Paulo II, no qual todos nós podemos compreender me­lhor e renovar a nossa fé na Eucaristia, que a Igreja proclama sacrifício de Cristo, o sacramento do corpo e sangue de Jesus Cristo. E também a Eucaristia, dizia ainda Papa João Paulo II, e certamente papa Bento XVI tem consciência disso, não é apenas sacrifício, nosso nutrimento e nossa companhia, mas também desafio, porque é a própria pessoa de Jesus que nos diz: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”. Trata-se de uma dimensão universal. Por isso a Igreja ruma para o homem e para todos os homens, porque ela está perto de todas as dificuldades e as dores de cada homem, assim como das comunidades e das nações.Essa é a tarefa do romano pontífice seja ele João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II ou Bento XVI: pregar Jesus, em uma continuidade absoluta.Que maravilha quando o Papa foi eleito! Depois que, segundo o rito, ele escolheu o seu nome, e nós rezamos por ele, como primeiro ato, ali na Capela Sistina, em cumprimento ao plano de Deus, o cardeal protodiácono, coloca-se diante do papa e proclama o Evangelho de Mateus, capítulo 16. Naquele instante volta-se às origens, para que o papa saiba logo com clareza o que o espera. Lê-se a confissão de fé de Pedro a Jesus: “Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo”; e Jesus respondeu-lhe: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”. Que lindo, tudo é claro desde o primeiro momento: Pedro deve proclamar Cristo e é Cristo que o chama e lhe dá a graça de poder completar a missão de Seu vigário.Sim, estamos cheios de esperança, e temos plena confiança: Claro, Jesus disse aos apóstolos que teriam tido dificuldades no mundo; porém disse: “Confieis”, te­nhais confiança porque “eu venci o mundo [...] e as portas dos infernos não prevalecerão” . Porque Pedro está edificado sobre a pedra, e toda a Igreja, como dizem os Atos dos Apóstolos, é fiel em rezar por Pedro, e... não temos mais nada. Porém, devemos enfrentar tudo, os problemas e os perigos, com a força do Espírito Santo, força que o Senhor infunde no coração do papa mas também de todos os fiéis. As suas orações contam muito, como as da comunidades ao redor do papa, os bispos. A oração: o Senhor não podia fazer mais, este é o seu plano de Salvação, e tudo aquilo que existe para que encontremos a salvação, podemos viver neste mundo com plena satisfação e alegria, em preparação para a vida eterna.
Jean-Baptiste Pham Minh Mân

Jean-Baptiste Pham Minh Mân

A minha esperança
para a Igreja Católica
do cardeal Jean-Baptiste Pham Minh Mân
arcebispo de Thành-Phô Hô Chí Minh
Espero que o novo Papa Bento XVI seja. 1) um incansável mensageiro da Boa Nova de Cristo, para ajudar a Igreja ser testemunha do amor de Deus para toda a humanidade; 2) um pastor que encoraje e que guie o rebanho de Deus confrontando-se com a cultura do materialismo, do pragmatismo e do consumismo presentes na vida da sociedade moderna, para à riqueza da vida de Cristo; 3) um líder espiritual que sirva humildemente Deus e a sociedade por meio de sábios esforços para construir uma nova comunidade humana que viva na verdade e na santidade, no amor e na paz de Cristo.
As perspectivas e as diretrizes futuras do novo pontificado podem ser encontradas na homilia da sua primeira missa como papa celebrada na Capela Sistina quarta-feira, 20 de abril.A Igreja continua a sua peregrinação no cami­nho indicado pelo Concílio Vaticano II, sob a luz do Espírito de Cristo: a comunhão em vista de uma maior unidade em um mundo globalizado; o diálogo que busca um compromisso mais eficaz para uma vida mais rica e para uma maior dignidade humana em um mundo que, olhando ao futuro, vê-se aflito por ânsias e incertezas. A comunhão e a unidade dão à Igreja uma vida mais rica e uma força maior. O diálogo e o serviço ajudam a Igreja e cumprir de modo mais eficaz a sua missão no mundo moderno.
Péter Erdö

Péter Erdö

Ouvia com atenção a opinião
de todos
do cardeal Péter Erdö
arcebispo de Esztergom-Budapest
Entre os fiéis católicos da Hungria, mas também em toda a sociedade magiar, a notícia da eleição do cardeal Joseph Ratzinger à Sé de Pedro foi aco­lhida com grande alegria. Os intelectuais do meu país conhecem muitas obras do novo Pontífice também em tradução húngara. Os seus escritos foram best-seller. Falava-se muito de suas obras tanto em público como em privado. Por isso alguns anos atrás, o então cardeal Ratzinger recebeu o prêmio “Stephanus” da Sociedade de Santo Estêvão, a associação e editora católica mais antiga e prestigiosa do país.
Enviou o seu último livro-entrevista como presente de Natal a todos os sacerdotes da nossa diocese.As minhas melhores recordações sobre a pessoa do Papa estão ligadas às suas atividades nas várias congregações e comissões da Santa Sé. Como estimado cardeal ouvia sempre com atenção a opinião de todos os outros e no final, na sua intervenção, apresentava uma síntese elegante, apreciando todos os elementos positivos emersos na discussão. E não se limitava a fazer uma apresentação sintética do debate, mas indicava com a máxima clareza o caminho para a solução do problema.
Crescenzio Sepe

Crescenzio Sepe

O caminho da Basílica
de São Paulo
do cardeal Crescenzio Sepe
prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos
O pontificado do Papa Bento XVI dá os seus primeiros passos, mas o horizonte que indicou à Igreja é vasto e leva muito longe.
Foi suficiente um gesto, uma parada para oração sobre o túmulo do apóstolo Paulo, para indicar a grande direção de marcha e, ao mesmo tempo, as raízes de um ministério petrino que hoje é sinal de esperança para toda a humanidade.Na Basílica de São Paulo, Bento XVI fez uma pere­grinação tão breve na distância quanto significativa na sua extraordinária profundidade. Sobre o túmulo do Apóstolo das gentes, o Papa foi “reavivar” a “graça do apostolado” para poder servir melhor uma Igreja que, no início do terceiro milênio, “sente com renovada vivacidade que o mandato missionário de Cristo é mais do nunca atual”. Para o Santo Padre, tomar o caminho da Basílica de São Paulo foi como tomar para si e para a Igr­eja o caminho missionário ao longo do qual não existe temor de que se possa desperdiçar nem mesmo um grão da fidelidade a Cristo. É freqüente, como dizem os dois apóstolos fundadores da Igreja de Roma, também o caminho do martírio, aquele que “irrigou esta terra” e “tornou-a fecunda”, colocando-a na cúpula da “comu­nhão universal da caridade”. A peregrinação à basílica de São Paulo para Bento XVI foi como a urgência de querer despertar, nas pegadas dos Padres e à luz do Concílio Vaticano II, o caráter missionário da Igreja e, ao mesmo tempo, traçar as linhas do seu pontificado.Sé da Cátedra de Pedro, Roma é o primeiro ponto basilar de uma visão missionária geral. Antes de alcançá-la fisicamente, a apóstolo Paulo apareceu à capital do Império com a mais importante das suas Cartas, apresentando-se à comunidade de Roma como “Servo de Jesus Cristo, apóstolo por vocação” (Rm 1, 1).Bento XVI ajude-nos a ler, no livro aberto – e muitas vezes inexplorado – dos nossos próprios testemunhos, páginas antigas e novas de uma realidade eclesial que sempre reconheceu como sua tarefa primária o dever do anúncio. “O Concílio Vaticano II” observou Papa Bento XVI na basílica de São Paulo “dedicou à atividade missionária o decreto Ad gentes que recorda como os apóstolos, seguindo o exemplo de Cristo, ‘pregaram a palavra da verdade e geraram as Igrejas’”.Evangelizar foi o primeiro compromisso – diria a ânsia apostólica – de João Paulo II, que introduziu a Igreja no terceiro milênio cristão.Papa Bento XVI, de maneira criativa, segue seus passos.A Igreja missionária agora está a caminho sob a sua guia. E os horizontes são mais vastos do que nunca.
José Saraiva Martins

José Saraiva Martins

A total e confiante
adesão a Cristo
do cardeal José Saraiva Martins
prefeito da Congregação para as Causas dos Santos
A centralidade de Cristo é um dos temas que emergem nos primeiros discursos do novo Papa Bento XVI. Como profundo teólogo, ele vê o ministério petrino, ao qual foi chamado pela Providência, à luz do Senhor, ao qual pede a força para ser “corajoso e fiel pastor do seu rebanho, sempre dócil às aspirações do seu Espírito”. Na iminência de empreender este serviço para a Igreja universal, é a Cristo, em primeiro lugar, que renova a sua “total e confiante adesão”, repetindo as palavras “In Te, Domine, speravi; non confundar in aeternum”.
O Cristo ao qual o Papa se dirige é o Cristo ressuscitado, constantemente presente na Eucaristia, “que continua a oferecer-se a nós, chamando-nos a participar da mesa do seu Corpo e do seu Sangue. Da comu­nhão plena com Ele brotam todos os outros elementos da vida da Igreja, em primeiro lugar a comunhão entre todos os fiéis, o compromisso de anúncio e testemu­nho do Evangelho, o fervor da caridade para com todos, especialmente para com os mais pobres e pequeninos”. Justamente porque a Eucaristia é a “fonte e ápice” da vida e da missão da Igreja, o novo Pontífice, seguindo os passos do seu imediato predecessor, pede para intensificar, principalmente nos próximos meses, o amor e a devoção a Jesus eucarístico.Esta centralidade de Jesus Cristo, sublinhada no discurso no final da concelebração eucarística com os cardeais eleitores na Capela Sistina, é encontrada também em suas sucessivas intervenções. Assim foi na homilia da missa de início do seu ministério petrino como bis­po de Roma, Papa Bento XVI diz que “a Igreja é viva, porque Cristo é vivo, porque verdadeiramente ele ressuscitou”, que “a santa preocupação de Cristo deve animar o pastor” que a Igreja no seu conjunto, e os pastores nela, como Cristo, “devem pôr-se a cami­nho, para conduzir os homens fora do deserto, para lugares da vida, da amizade com o Filho de Deus, para Aquele que dá a vida, a vida em plenitude”; que uma das características fundamentais do pastor deve ser a de amar os homens que lhe foram confiados por Deus, “assim como ama Cristo, a cujo serviço se encontra”.Só quando encontramos em Cristo o Deus vivo, diz ainda o Papa, conhecemos o que é a vida; e prossegue afirmando que “não há nada mais belo do que ser alcançados, surpreendidos pelo Evangelho, por Cristo. Não há nada de mais belo do que conhecê-Lo e comunicar com os outros a Sua amizade”.E Papa bento XVI conclui a sua homilia recordando as palavras inesquecíveis e programáticas de seu imediato predecessor: “Não tenhais medo, abri de par em par as portas a Cristo” confirmando-as e dirigindo-as especialmente aos jovens: “Queridos jovens: não te­nhais medo de Cristo! Ele não tira nada, ele dá tudo. Quem se doa por Ele, recebe o cêntuplo. Sim, abri de par em par as portas a Cristo e encontrareis a vida verdadeira”. São palavras que certamente não serão esquecidas pelas centenas de milhares de jovens que se preparam para participar da Jornada Mundial da Juventude, que será realizada em agosto em Colônia.A mesma linha cristocêntrica foi evidenciada pelo novo Pontífice na homilia pronunciada na visita, em 25 de abril, à Basílica de São Paulo Fora dos Muros. Uma visita que o próprio Papa definiu como “uma peregrinação, por assim dizer, às raízes da missão, daquela missão que Cristo ressuscitado confiou à Pedro e aos Apóstolos e, de modo singular, também a Paulo”. Foi o amor a Cristo que transformou a existência de Paulo e levou-o a anunciar o Evangelho às gentes. Foi este mesmo amor que o Papa pede também para si mesmo, “para que eu não tenha paz perante as urgências do anúncio evangélico no mundo de hoje”.E Bento XVI recorda o mote que São Bento colocou à sua Regra, exortando os seus monges a “nada antepor absolutamente ao amor de Cristo”.Papa Bento XVI volta a falar sobre este pensamento na sua primeira audiência geral, dia 27 de abril passado, na Praça de São Pedro. Ele pede ao Pai do Monaquismo ocidental “que nos ajude a manter firme a centralidade de Cristo na nossa existência. Que ele esteja sempre no primeiro lugar nos nossos pensamentos e em cada uma das nossas atividades”. Palavras que são um verdadeiro compêndio de teologia espiritual e pastoral do novo sucessor de Pedro.
Jean-Louis Tauran

Jean-Louis Tauran

Pela reconciliação e a paz
do cardeal Jean-Louis Tauran
arquivista e bibliotecário da Santa Romana Igreja
Participar de um conclave como cardeal eleitor é, antes de tudo, uma profunda experiência espiritual. Pessoalmente tive a consciência de que quem vota é, na realidade, um instrumento da ação de Deus na sua Igreja, uma Igreja que me pareceu mais viva e audaciosa.
A escolha do cardeal Joseph Ratzinger como sucessor do Papa João Paulo II certamente é a expressão de uma continuidade; o novo Pontífice recordou isso várias vezes. Mas todos nós, diria todo o mundo, entendemos que Bento XVI, humilde e sorridente, poderia ser o Papa que proclamará a eterna ternura de Deus. No mundo violento, algumas vezes impiedoso, que nós fabricamos, o novo Pontífice nos recordará, com sua mansidão, a força do amor capaz de abrir novos caminhos à humanidade. De resto, escolhendo o nome Bento, como recordação de Bento XV, ele mesmo quis indicar que o seu ministério será colocado a serviço da reconciliação e da paz.Fiquei impressionado ao ouvir as palavras de vários romanos: “Este Papa tão profundo diz coisas tão claras, que entendemos tudo!”Sim, a Igreja mais um vez demonstrou que, viva e jovem, é capaz de surpreender e dizer ao mundo, com Bento XVI: “Não tenhais medo de Cristo! Ele não tira nada, e doa tudo”.Não há notícia melhor para o mundo de hoje e de amanhã.
Renato Raffaele Martino

Renato Raffaele Martino

A defesa do homem
de todas as tiranias

do cardeal Renato Raffaele Martino
presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz

Concelebrei com Papa Bento XVI a missa de posse de São João de Latrão, sábado, 7 de maio. Entre as passagens do admirável discurso que mais me impressionaram, e que traspassam o dicastério que presido, foi a que se refere à defesa do homem de todas as tiranias que têm raízes nas “tentativas de adaptação e adulteração da Palavra de Deus” e nas “erradas interpretações da liberdade”. Unindo-se à firmeza de João Paulo II a este propósito, acrescentou com inequivocável clareza: “A liberdade de matar não é uma liberdade, mas é uma tirania que reduz o ser humano à escravidão”. E isso, obviamente, não se refere só ao aborto ou à eutanásia, mas também à guerra, à pena de morte, ao terrorismo, aos extermínios por fome ou imprudentes devastações do ambiente natural.
Desde o início do seu ministério apostólico, com a escolha do nome, com os primeiros discursos e com os primeiros gestos do pontificado, Bento XVI manifestou claramente seu próprio empenho em defesa da pessoa humana, para a promoção dos seus inalienáveis direitos e para a realização da justiça e da paz no mundo.
Durante a sua primeira audiência geral, quarta-feira, 27 de abril, explicando a razão de querer ser chamado Bento “para me relacionar idealmente” ao venerado Pontífice Bento XV que foi um “profeta corajoso e autêntico de paz” – , o Santo Padre disse com clareza: “Nas suas pegadas desejo colocar o meu ministério ao serviço da reconciliação e da harmonia entre os homens e os povos, profundamente convencido de que o grande bem da paz é antes de tudo dom de Deus, dom frágil e precioso que deve ser invocado, tutelado e construído dia após dia com o contributo de todos”.
De resto, na homilia da missa pelo solene iní­cio do ministério petrino, na Praça de São Pedro, dia 24 de abril, denunciara com fortes palavras as injustiças que ameaçam a paz quando “os tesouros da terra já não estão ao serviço da edificação do jardim de Deus, no qual todos podem viver, mas tornaram-se escravos dos poderes da exploração e da destruição”.
Estas são palavras valorizadas pelos primeiros gestos de grande humanidade, cordialidade e abertura. O novo Pontífice logo demonstrou-se disponível ao diálogo com os irmãos separados, com os judeus, com os muçulmanos, com os crentes das outras religiões e com todas as pessoas de boa vontade.
Encorajado, sustentado e guiado pelo Supremo Poder, o Pontifício Conselho Justiça e Paz retoma com renovado impulso e entusiasmo as suas iniciativas de promoção eclesial de tais finalidades, intensificando publicações, reuniões e seminários de estudo, congressos, encontros, participação qualificada a cúpulas internacionais, especialmente ilustrando e difundindo este ano o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, recentemente editado, como precioso instrumento para o correto discernimento e a eficaz presença e ação dos católicos no vasto mundo das relações sociais.


Javier Lozano Barragán

Javier Lozano Barragán

“Nos conhecemos desde 1980...”

do cardeal Javier Lozano Barragán
presidente do Pontifício Conselho para a Pastoral
no Campo da Saúde

Conheci o então cardeal Joseph Ratzinger vinte cinco anos atrás. Assim quando fui prestar obediência depois do conclave, Papa Bento XVI, antes que eu falasse disse-me: “Nos conhecemos desde 1980...”. Naquele tempo, com efeito, ele era o relator do Sínodo da Família e eu secretário especial. E justamente para iniciar este nosso trabalho ele convidou-me para ir a Munique onde era o cardeal arcebispo. Recordo de muitas coisas daquele primeiro encontro, a sua extrema amabilidade, mas também a sua grande perspicácia. Na época, aqui na Europa, debatia-se muito sobre a Teologia da Libertação. Recordo bem que ele perguntou-me: “Mas o que é essa Teologia da Libertação?”. Essa foi uma das suas primeiras perguntas. Naquele ano trabalhamos juntos por muito tempo, e por ao menos três ou quatro meses de maneira continuada. E no período da celebração do Sínodo encontrávamo-nos diariamente. Lembro-me muito bem que ele dizia: “O senhor faz essa parte do trabalho e eu faço a outra”. Tinha uma total confiança no meu trabalho e não esperava que eu escrevesse simples rascunhos para serem revistos por ele. Desse modo economizou-se tempo: pois na época não havia computadores, não tínhamos nada, tudo era escrito à mão. E também, na época ele não falava bem italiano por isso falávamos em alemão. Espero não ser presunçoso em dizer que graças àquele trabalho lado a lado de 1980 tornamo-nos amigos. Para mim foi um grande privilégio trabalhar com ele naquela ocasião.
Depois voltei ao México e o cardeal Ratzinger foi chamado a Roma para guiar a Congregação para a Doutrina da Fé. Neste período eu estudava particularmente a teologia da libertação e escrevia alguns livros. Toda vez que voltava a Roma ia encontrá-lo e dava-lhe os meus livros. Recordo em particular que lhe dei o dedicado justamente à Teologia da Libertação, intitulado A Igre­ja do povo, teologias em conflito, e o dedicado às seitas, intitulado Porque sou católico, resposta às seitas. Era sempre cortês e amável, e os nossas conversas eram sempre de grande estímulo intelectual e espiritual.
Depois João Paulo II honrou-me ao chamar-me ao Vaticano para presidir o Pontifício Conselho para a Pastoral no Campo da Saúde. E também nomeou-me membro da Congregação para os Bispos. Por isso tive a sorte de encontrar muitas vezes o cardeal Ratzinger. Tive também a oportunidade de enfrentar junto com ele problemas que eram também de minha competência como os bioéticos. Juntos discutimos a questão sobre a licitude para os diáconos serem os ministros da extrema-unção, usança muito difusa em países europeus como a Alemanha e a França, ou latino-americanos como o Brasil. Também recentemente tivemos contatos para estudar a conveniência ou não de colaborar com o Global Found para combater a Aids, a malária e a tuberculose, e também para o nascimento da fundação do Bom Samaritano, criada por João Paulo II no nosso dicastério, justamente para ajudar os doentes mais necessitados no mundo, especialmente os atingidos pelo vírus HIV. A respeito disso fiquei muito contente que também o cardeal Angelo Sodano tenha recentemente me comunicado que o Papa Bento XVI aprovou per integrum a intervenção para o Fórum Mundial da Saúde que se realiza em Genebra no mês de maio na sede da OMS, onde aprova também a dita Fundação.
Gostaria de concluir este meu breve testemunho com um simpático episódio que remonta a um dia depois da eleição de Bento XVI. Junto com outros dois cardeais eu estava saindo da Sala de refeições da Casa “Santa Marta”, depois do café da manhã, quando encontramos o Papa todo vestido de branco. Eu lhe disse: “Mas que coincidência, Santo Padre!” e acrescentei: “Santo Padre o senhor dormiu essa noite?”. E ele respondeu: “Sim... creio que terei noites piores...”. O segundo cardeal que estava comigo disse: “Devemos nos acostumar a vê-lo vestido de branco...” e ele respondeu com um sorriso. O terceiro cardeal enfim disse: “Mas também o senhor deve se acostumar a ver-se vestido de branco...”. E ele respondeu: “Graças a Deus, eu não me vejo!”.


Georges Cottier

Georges Cottier

Caminhava pelas ruas
rezando o rosário,
com a sua boina

do cardeal Georges Cottier
pró-teólogo da Casa Pontifícia

O que me impressionava do cardeal Ratzinger era a sua simplicidade. Vi-o muitas vezes caminhar pela rua indo para a Porta Angélica recitando o rosário, com sua boina. Esta é a primeira imagem que me vem em mente quando penso nele, tão longe da imagem do Panzerkardinal como apresentado por aí, e que é completamente falsa. Claro, quando ele, consciente, sente o dever de tomar uma decisão, o faz sem hesitações. Mas esta é uma qualidade.
Fui secretário da Comissão Teológica Internacional por muitos anos e todos os anos havia uma semana plenária, durante a qual se fazia um traba­lho intenso sobre vários temas, sugeridos pela congregação para a Doutrina da Fé ou escolhidos pela própria Comissão. Durante aquelas jornadas sempre houve uma grande liberdade de discussão. O cardeal Ratzinger estava sempre conosco, seguia todas as fases do trabalho, e via-se que, tendo que trabalhar com a teologia e com os teólogos, lidava com seu elemento natural. Naquelas ocasiões tive a oportunidade de conhecer as suas qualidades humanas, como a afabilidade, a capacidade de ouvir, e também as intelectuais como a capacidade de síntese. Agora que os cardeais escolheram-no como sucessor de Pedro, temos como Papa um homem sábio, que sabe que a teologia faz parte da sabedoria cristã e que não se dá teologia sem a vida de fé. Quando recordou, na sua primeira audiência geral, a regra de não antepor nada a Cristo, que São Bento indicava aos monges, pode-se dizer que este mesmo critério podemos encontrar na sua pessoa, assim como na maneira da fazer teologia. E essa é a coisa mais bela. Alegrou-me muito vê-lo apresentar-se ao mundo como um humilde trabalhador da vinha do Senhor. E também na sua homilia na missa de início de pontificado, quando disse que seu programa não será a afirmação de idéias próprias, mas a docilidade à inspiração de Jesus e ao seu Evangelho. Papa Bento XVI é um vir ecclesiasticus, um homem da Igreja. Sempre soube que um teólogo católico faz teologia não a título pessoal, mas como filho da Igreja. Assim viveu a sua atividade de teólogo. Em plena humildade, sem ceder à tentação da soberbia que muitas vezes faz do teólogo uma profissão a risco, um ofício perigoso.
Creio também que Deus o tenha preparado ao seu encargo atual, porque Papa Ratzinger não somente foi o grande teólogo que é, mas o longo período vivido como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé garantiu-lhe uma experiência da vida da Igreja de grande horizonte, pelo constante contato com tantos bispos. É um papa que tem uma visão realmente total dos problemas. Agora os grandes problemas são globais, atingem toda a humanidade, e do seu observatório, da sua meditação, da sua oração, o cardeal Ratzinger foi preparado para enfrentar tudo isso.


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