A grande rede das missões
A Congregação de Propagande Fide nasceu no século XVII para dirigir e coordenar toda a atividade missionária da Igreja. Eis como funciona e de que se ocupa hoje
de Gianni Cardinale

A Congregação de Propagande Fide
A Congregação de Propaganda Fide nasceu no século XVII para dirigir e coordenar toda a atividade missionária da Igreja, procurando torná-la independente da tutela sufocante das potências coloniais católicas da época, em particular Espanha e Portugal. E essa é sua tarefa ainda hoje. Segundo a constituição apostólica Pastor Bonus, de 1988, a tarefa desse organismo é sempre “dirigir e coordenar no mundo inteiro sua obra da evangelização dos povos e a cooperação missionária”.
Propaganda, portanto, é o organismo vaticano que tem jurisdição sobre todos os territórios nos quais as estruturas eclesiásticas ainda estão num nível tal que não permite a criação de uma diocese, que, portanto, são subdivididos em vicariatos apostólicos, prefeituras apostólicas ou missões sui iuris. E não apenas isso. Estão também sob sua jurisdição os países nos quais a presença cristã é mais recente e menos arraigada. Ou seja, toda a Ásia, com exceção das Filipinas, toda a África, exceto o Egito e a Tunísia, e toda a Oceania, exceto a Austrália. Propaganda Fide é responsável também pelos territórios de mais difícil acesso do Canadá e dos Estados Unidos, como o Alasca, das Antilhas e até de algumas regiões da velha Europa, como a Bósnia-Erzenovina, a Macedônia, o Kôsovo, o Montenegro e a Albânia.
Segundo os últimos dados disponíveis, 1.081 circunscrições eclesiásticas da Igreja Católica - pouco menos de 40% do total - estão ligadas a Propaganda. O que significa que as práticas para a nomeação dos bispos e dos superiores são efetivamente dirigidas por Propaganda. Dessas 1.081 circunscrições, 153 se encontram na chamada zona do silêncio, ou seja, na China (142) e no Camboja, na Coréia do Norte e no Laos. Além disso, mais de sessenta Conferências Episcopais fazem também referência à Congregação.
Mas a atividade da Congregação não se limita à nomeação de mais de mil responsáveis de circunscrições eclesiásticas. Sob seu guarda-chuva encontram-se cerca de 85 mil sacerdotes engajados na chamada missio ad gentes, 52 mil pertencentes ao clero diocesano e 33 mil religiosos. A estes se devem acrescentar 28 mil religiosos não sacerdotes, 450 mil freiras e 1,650 milhão de catequistas. Propaganda Fide acompanha também, nos territórios de sua competência, a formação espiritual e acadêmica dos candidatos ao sacerdócio em 280 seminários maiores diocesanos e em 110 seminários menores, num total de 65 mil seminaristas maiores e 85 mil menores, aos quais garante também um subsídio econômico. A Propaganda estão ligados ainda os religiosos e religiosas que se encontram como missionários em seus territórios de competência e todos os membros das sociedades de vida apostólica, como os sacerdotes do Pime, os palotinos e os padres brancos.
São igualmente impressionantes os números que dizem respeito às atividades sócio-assistenciais. Além de construir uma incontável quantidade de igrejas-capelas sobretudo para as pequenas comunidades católicas espalhadas nas áreas rurais ou nas regiões de mais difícil acesso, Propaganda sustenta atividades educativas (42 mil escolas); atividades de saúde (1.600 hospitais, mais de seis mil dispensários, 780 leprosários); atividades caritativas e sociais (12 mil iniciativas).
A propósito das obras caritativas e sociais, deve-se acrescentar que elas são destinadas não apenas aos católicos, mas também e, em alguns casos, sobretudo, aos não-católicos e aos não-cristãos. Nos últimos anos, ainda, a Congregação está tomando iniciativas para a assistência aos doentes de aids, sobretudo na África, onde, em alguns países, em razão dessa doença, cuja difusão aumentou em vinte vezes nos últimos anos, morrem três pessoas a cada cinco minutos. O mesmo vale no que diz respeito à malária, ao cólera, à diabetes, à meningite e à cegueira provocada pela oncocercose, que atinge pelo menos 71 milhões de africanos.
Está também ligada a Propaganda uma série de importantes instituições acadêmicas e de formação presentes em Roma, a começar da Pontifícia Universidade Urbaniana, a única instituição acadêmica exclusivamente missionária do mundo, com cerca de 1.300 estudantes e 110 professores. Existem ainda os Pontifícios Colégios São Pedro e São Paulo, dois institutos de estudos superiores para 350 sacerdotes provenientes dos países de missão; o Pontifício Colégio Urbano, para a formação de 140 seminaristas dos países missionários; o Colégio “Mater Ecclesiae”, para a formação de catequistas; o Foyer Paulo VI, para a formação de 80 religiosas; o Centro Internacional de Animação Missionária, para a animação da missão ad gentes. É particularmente interessante também o Centro Cultural asiático “João Paulo II”, que acolhe 45 estudantes provenientes, neste momento, do Vietnã e da China. Os alunos provenientes do ex-Império Celeste pertencem indiferentemente tanto à comunidade oficial quanto à clandestina da Igreja Católica chinesa: entre outras coisas, é uma forma concreta de reaproximação entre duas realidades que muitas vezes têm não poucas dificuldades de entendimento em suas pátrias.
Em razão de toda essa série de atividades, é óbvia a necessidade de poder dispor de recursos financeiros abundantes. Não é por acaso, portanto, que, desde a fundação, Propaganda Fide tenha sido dotada pelos pontífices de um patrimônio abundante e de uma autonomia financeira completa. No passado - de 1632 a 1908 -, chegou a existir uma Congregação da Economia, especificamente para cuidar desses aspectos “monetários”, dirigida por um cardeal. Até hoje, Propaganda Fide é o único organismo romano financeiramente autônomo (todos os outros estão subordinados à Administração do Patrimônio da Sé Apostólica) e é também o único que tem dois arcebispos secretários, um dos quais especificamente encarregado de acompanhar os aspectos, por assim dizer, materiais. Assim, como coadjutor do cardeal prefeito Crescenzio Sepe para a atividade pastoral, há o arcebispo africano Robert Sarah, e, para a atividade econômico-financeira, o palotino polonês arcebispo Henryk Hoser, secretário adjunto. Ao mesmo tempo, na coordenação do trabalho da administração, composta totalmente por leigos, está o gerente dom Francesco Di Muzio.
Já no que diz respeito à promoção e à coordenação da coleta dos subsídios que serão destinados e repartidos de acordo com as necessidade dos vários lugares, Propaganda se serve sobretudo das Pontifícias Obras Missionárias. São pias associações de fiéis nascidas entre o século XIX e os primeiros anos do século XX, que têm a finalidade de socorrer as missões com meios materiais e espirituais. Elas constituem uma única organização dividida em quatro ramos (a Obra da Propagação da Fé, fundada em Lyon por Paulina Maria Jaricot em 1822; a Obra de São Pedro Apóstolo, que nasceu em Caen em 1899; a Obra da Santa Infância, fundada em 1843 pelo bispo de Nancy, Charles de Forbin-Janson; e a União Missionária, fundada pelo beato Paulo Manna em 1916). Essas Pontifícias Obras Missionárias são acompanhadas particularmente pelo secretário adjunto, o arcebispo Hoser, e, do ponto de vista administrativo, por padre Silvano Rossi.
Um último capítulo da multiforme atividade de Propaganda diz respeito ao campo editorial e midiático. Durante cerca de três séculos, de 1626 a 1909, a Congregação teve sua “gráfica poliglota”, que produziu para vários fins e em múltiplas línguas numerosas edições de textos das escrituras e de obras litúrgicas, e depois foi incorporada à Tipografia Vaticana. Atualmente, Propaganda é o único organismo que tem uma agência de notícias própria. Trata-se de Fides, dirigida pelo professor Luca De Mata, que dispõe de um rico site na internet (www.fides.org) em sete línguas, inclusive o chinês. Com o início do pontificado de Bento XVI, Fides lançou um novo suplemento que mensalmente “reúne, reorganiza e propõe em forma de aprofundamento tudo o que é publicado cotidianamente sobre o magistério do Santo Padre”. A sétima edição do Guia das missões católicas foi publicada no início deste ano. Compõe-se de mais de 1.500 páginas e é um complemento útil ao mais famoso Anuário Pontifício; fornece uma grande série de menções históricas e dados atualizados sobre todas as circunscrições eclesiásticas ligadas a Propaganda. Nesse caso, também, é um tipo de publicação único no panorama das obras editadas pela Cúria Romana. Isso torna também única a Congregação de Propaganda Fide, cuja sede é um edifício histórico que leva seu nome e se destaca na Praça de Espanha.