Alguma novidade, também em Xangai
Uma viagem ao encontro dos cristãos da cidade-símbolo da nova China: a memória de quem testemunhou a fé durante a perseguição e o novo início, desarmado, de quem se torna cristão hoje. Enquanto isso, o novo bispo auxiliar nomeado pelo Papa é ordenado com a aprovação do governo...
de Gianni Valente

A Catedral de Santo Inácio, em Zikawei, como é hoje e como era na década de 1920
Na manhã de 28 de junho, nesta mesma Catedral - um dia em que fazia mais calor ainda, a ponto de se espalhar enormes blocos de gelo seco pela igreja para refrigerar a multidão formada por cinco mil pessoas -, Joseph Xing Wenzhi se tornou o primeiro chinês ordenado bispo sob o pontificado do papa Ratzinger. Havia sido nomeado por João Paulo II. Depois, foi “eleito” pela maioria, em votação dos representantes diocesanos - padres, freiras e leigos da diocese de Xangai. Em seguida, o governo de Pequim o “aprovou”. Por fim, o bispo nonagenário Aloysius Jin Luxian, à frente da diocese de Xangai desde 1985, com o reconhecimento do governo, mas - até hoje - sem a aprovação da Santa Sé, tornou-o sucessor dos Apóstolos, impondo-lhe as mãos na liturgia de ordenação episcopal. Ele é o grande “maestro” de sua complicada sucessão, na qual se misturam e se ajuntam, num ponto de virada, todas as controvérsias e episódios anômalos vividos pela Igreja da China nos últimos 55 anos. Pois ser bispo em Xangai, certamente, não é o mesmo que em outros lugares.
Na manhã de 28 de junho, Joseph Xing Wenzhi se tornou o primeiro chinês ordenado bispo sob o pontificado
do papa Ratzinger. Havia sido nomeado
por João Paulo II. Depois, foi “eleito”
pela maioria, em votação dos representantes diocesanos - padres, freiras
e leigos da diocese de Xangai. Em seguida,
o governo de Pequim o “aprovou”. Por fim,
o bispo nonagenário Aloysius Jin Luxian,
à frente da diocese de Xangai desde 1985, com o reconhecimento do governo, mas - até hoje - sem a aprovação da Santa Sé,
agregou-o ao Colégio dos Bispos
Zikawei, 8 de setembro de 1955
Os terrenos em torno da Catedral, hoje totalmente ocupados por arranha-céus e grandes lojas de eletro-eletrônicos, foram doados à Igreja no início do século XVII pelo mandarim Xu Guangqi, poderoso amigo do jesuíta Mateus Ricci, depois de receber o batismo. Ainda hoje, o bairro Xujiahui - Zikawei, em dialeto de Xangai - traz o nome da família de Xu. Foi aqui que os jesuítas, a partir da metade do século XVIII, ergueram sua cidadela cristã, nos subúrbios da que já então era uma grande metrópole cosmopolita. Além da Catedral, existem os seminários e o observatório astronômico. O que na época era a residência dos padres hoje é a biblioteca Zikawei, e o antigo refeitório serve de sala de leitura. O que era a casa das freiras hoje abriga um restaurante para gente rica, do outro lado da Puxi Road. Era aqui em Zikawei que trabalhava como diretor do Colégio Santo Inácio o padre Zhang Boda, primeiro mártir jesuíta morto enquanto prisioneiro contra-revolucionário nas prisões de Mao, já em novembro de 1951. Foi aqui, em Zikawei, que a estratégia maoísta para aniquilar a Igreja chinesa separando-a da comunhão visível com o sucessor de Pedro deu um de seus maiores golpes. Afinal, a diocese de Xangai e seu bispo, Ignatius Gong Pinmei, eram um símbolo para todo o país, bastião da resistência católica ao projeto do Partido Comunista de criar uma Igreja nacional do regime que renegasse qualquer vínculo com a Sé Apostólica, identificada como “central imperialista” vaticana. O leigo Simon He, que hoje tem 71 anos e na época havia acabado de concluir o segundo grau, não conseguiu esquecer aquela noite de 8 de setembro de 1955: “A polícia cercou todos os edifícios religiosos. A operação durou a noite toda e o dia seguinte também. Prenderam mais de quatrocentas pessoas, todas as mais destacadas da diocese: o bispo Gong, todos os padres que colaboravam mais de perto com ele e quase todos os leigos inscritos na Legião de Maria, sob a acusação de que era um grupo paramilitar patrocinado pelas potências capitalistas. Outras mil pessoas foram confinadas no seminário menor, e trabalharam lá durante três anos, passando por sessões de lavagem cerebral que instruíam sobre o socialismo e contra o Vaticano imperialista”. Decapitada de sua cúpula e de boa parte de seus pastores, a Igreja de Xangai viveu durante anos num limbo de incerteza. Até que, em meados da década de 1960, sobreveio aqui também, como em toda a China, a escuridão da noite da Revolução Cultural. “O seminário”, lembra Simon, “foi transformado num hospital. As freiras viraram operárias em seu ex-convento, transformado numa fábrica de guarda-chuvas. Todas as igrejas foram confiscadas ou fechadas. Nós continuamos a rezar, fechados em casa. Até a Catedral de Zikawei foi arruinada. As Guardas Vermelhas quebraram os vitrais, danificaram o teto e as torres. Mas o resto ficou de pé”.

O bispo Aloysius Jin Luxian impõe o Evangelho sobre a cabeça de Joseph Xing Wenzhi durante sua ordenação episcopal, em 28 de junho passado
Desde então, tudo parece ter mudado. Quem chega hoje a Zikawei encontra uma igreja como todas as outras, freqüentada com plena liberdade por cristãos que já não precisam se esconder para fazer suas orações e tomar a comunhão. Ao lado da Catedral, foram inaugurados há pouco tempo uma nova residência episcopal e uma casa para sacerdotes, com dez andares, no topo dos quais despontam as estátuas de mármore dos quatro evangelistas. No entanto, sob a aparência de uma vida eclesial ordinária, os anos de grande tribulação deixaram feridas ainda abertas no íntimo da Igreja de Xangai.
Há cinqüenta anos, o jovem jesuíta Aloysius Jin e seu confrade Joseph Fan Zhongliang eram dois dos colaboradores mais próximos dos bispo Gong Pinmei, e também foram presos, na noite da grande detenção em massa. Seu bispo confiava em ambos: tornara o primeiro reitor do seminário maior, e ao segundo dera a responsabilidade pelo menor. Em 1954, sentindo que o furacão se aproximava, os dois, ao lado de todos os padres de Xangai, subiram com seu bispo até o santuário de Nossa Senhora de Xexan para jurar que não trairiam a fé, com a ajuda da Virgem. Passada a época terrível da Revolução Cultural, depois de quase vinte e cinco anos de cadeia e prisão domiciliar, Jin e Fan também foram libertados, no início da década de 1980, como acontecia no mesmo período a milhares de sacerdotes, religiosos e fiéis. A China de Deng Xiaoping reabria as igrejas, convidava padres, freiras e bispos a retomarem seu trabalho, ainda que em regime de vigilância política. Foi então que os caminhos dos dois jesuítas se dividiram.Jin aceitou tornar-se reitor do seminário e, em 1985, bispo auxiliar de Xangai, com a permissão do governo de Pequim mas sem a do Papa de Roma, enquanto o velho Gong Pinmei, legítimo titular da sé episcopal, continuava em regime de liberdade condicional. Fan, por sua vez, recusou qualquer forma de colaboração com as associações “patrióticas” impostas pelo regime como instrumentos de controle da vida da Igreja. Em 1985, também foi ordenado bispo, clandestinamente, e o Vaticano o reconheceu como único sucessor legítimo de Ignatius Gong Pinmei. A comunidade dixia, os fiéis “subterrâneos” que continuavam a rezar o rosário e a celebrar a missa fechados em casas particulares, mantendo-se distantes das igrejas que iam reabrindo, uma após outra, sob o controle do governo, juntaram-se em torno de Fan, sentindo-se confirmados por Roma na opção que faziam de resistir inflexivelmente. Eram eles a “Igreja fiel”, aquela que em nome da fidelidade plena ao sucessor de Pedro havia se recusado a assumir qualquer compromisso com a linha separatista que o regime queria impor aos católicos chineses. Jin, sua cúria e seus padres eram traidores, usurpadores, fantoches nas mãos do regime. Eram o joio do campo do Senhor.Hoje, o bispo Fan tem Mal de Alzheimer, passa seus dias sem memória no apartamento no qual durante vinte anos o regime tolerou suas atividades “ilegais”, vigiando-o e limitando sua liberdade de movimento. A comunidade underground recebeu a notícia: a Santa Sé não reconhecerá nenhum outro bispo clandestino para a Igreja de Xangai. Quando Jin Luxian se aposentar, o único legítimo pastor a ser seguido por todos os católicos de Xangai, inclusive eles, será o sucessor Joseph Xing, reconhecido pelo governo de Pequim.Pode parecer um paradoxo de ingratidão eclesiástica. Que a Cúria Romana esteja voltando as costas a quem mais pagou por sua fidelidade ao papa, e que esteja fazendo acordos com aqueles que escolheram o compromisso com os perseguidores. Na realidade, a própria ordenação episcopal de Xangai esclarece os reais contornos da intrincada história vivida pela cristandade chinesa nos últimos cinqüenta anos. E torna falsas, para sempre, as teorias enganadoras segundo as quais haveria duas Igrejas na China, uma fiel ao papa e outra, ao partido.Nos últimos anos, Roma também entendeu que Jin não traiu o juramento que fez em 1954 diante de Nossa Senhora de Xexan. O risco, do ponto de vista canônico, com o qual aceitou se tornar bispo sem a permissão do Papa o expôs durante anos à acusação de ser um cismático. Mas o tempo revelou que ele também, como grande parte dos bispos ordenados ilicitamente na China naqueles anos, na Igreja nacional “autárquica” desejada pela propaganda do regime, realmente não pensava em cisma. À sombra dos slogans do regime, a questão era aproveitar as pequenas e passageiras aberturas concedidas pelo regime para retomar a vida eclesial. E favorecer a continuidade das instituições eclesiais e da administração dos sacramentos necessários à vida dos fiéis, à luz do sol. Por isso, já desde os primeiros anos da década de 1980, grande parte dos eclesiásticos enviava à Sé Apostólica, por vias reservadas, o pedido de serem reconhecidos como bispos legítimos, para regularizar sua condição do ponto de vista canônico.Em Xangai, os frutos colhidos nestes anos de vida “normal” das dioceses falam por si sós - a construção de novas igrejas em toda a cidade, um seminário de vanguarda, uma gráfica que imprime Evangelhos para a China inteira, escolas profissionalizantes, o relançamento da Associação dos Intelectuais Católicos, ligações com a universidade e instituições católicas de todo o mundo. “Ecclesia catholica una est, na China também”, diz, sorrindo, o padre Joseph Lu, que estudou nos EUA, dirige duas paróquias no centro e pediu o visto para viajar para a Europa e, talvez, dar um pulinho em Colônia, quem sabe por volta de 20 de agosto, quando o Papa também estará lá. “Nós e os clandestinos somos dois lados da mesma moeda. Antes, alguns irmãos das comunidades ‘subterrâneas’ diziam que nós das igrejas ‘abertas’ iríamos para o inferno. Mas há algum tempo não ouço mais coisas desse tipo. É de tempo mesmo que precisamos. Mas, seguindo o mesmo pastor, cedo ou tarde virá a reconciliação. E eles é que sairão à luz e freqüentarão as igrejas abertas. Nesta altura do campeonato, não podemos nós nos tornarmos clandestinos! Mesmo porque já não é preciso. Se existem igrejas abertas, por que se esconder nas casas para celebrar a missa? Ao menos aqui em Xangai, não é mais tempo de ser heróis”. O coração esquece
A Xangai que não tem mais heróis é a cidade decadente e liberada que ainda dá belas mostras de si mesma no Bund, à margem esquerda do Huangpu, onde os edifícios de pedra em estilo europeu hospedam hoje restaurantes de prestígio e sedes de representações dos colossos financeiros chineses. É a cidade intelectual e bon vivant, que passa suas noitadas excitantes no New Heaven and Earth, o bairro postiço de edifícios reconstruídos a partir das casas do início do século XX, entre restaurantes italianos, stripers francesas, música latino-americana, cervejas alemãs e laboratórios de design da nova arte xangaiense. Mas é o coração financeiro da megalópole, sobretudo, que bate hoje com ritmos taquicardíacos para lá do rio, em Pudong. É a área sem limites em que o capitalismo extremo, que faz a China pós-comunista entrar em convulsões, se encarnou num projeto urbanístico ciclóptico. Lá, na periferia do coração financeiro da Ásia inteira, a pobre Igreja de Jesus Cristo é formada por padre John Gong e seus mil paroquianos da Imaculada, uma nova igreja inaugurada em maio. Uma semente indefesa, perdida entre os arranha-céus de vidro e cimento e os conjuntos residenciais superprotegidos dos novos ricos. Diante dos novos tempos, não é raro que aflore aqui um fio de inconfessada saudade da época de testemunho cristão heróico que já ficou para trás.
Padre John, que todas as manhãs lê ali o breviário e depois celebra a eucaristia para seus cinqüenta fiéis da missa diária, estava também entre os jovens que depois da grande captura de 1955 tiveram de agüentar três anos de aulas “reeducativas” sobre o socialismo e as conjurações vaticanas, dadas pelos maoístas no seminário de Zikawei. Depois, durante trinta anos, esperou que a tempestade passasse, permanecendo fiel à promessa da juventude. Não se casou; em 1987, voltou ao seminário de Xexan, o primeiro a voltar a funcionar nos anos de abertura denchista. Só se tornou padre em 1990, com 52 anos. Mas, agora que já vê a China do futuro, a partir do observatório privilegiado de Pudong, alguma coisa parece estar errada. “Quando a perseguição estava para começar, o bispo Gong Pinmei nos advertiu de que deveríamos estar prontos. Rezem ao Senhor, ele nos disse; peçam que os ajude a conservarem a fé, que é o único tesouro. Hoje, tenho a impressão de que ninguém mais se dá conta desse tesouro. Todos pensam em ganhar dinheiro, trabalham até doze horas por dia. Para os jovens, mesmo os das famílias cristãs, as histórias daqueles que conservaram a fé naqueles anos difíceis são coisa do passado. O coração dos homens é capaz de esquecer até o maior dos passados”.

Dois momentos da missa dominical celebrada por dom Joseph Xing na Catedral de Zikawei, em 10 de julho passado
No Ocidente, jornalistas de notável imaginação prognosticam uma iminente explosão de espiritualidade cristã na China, como conseqüência religiosa dos processos galopantes de homologação consumista que ocorrem no universo chinês. Se isso for verdade, não há nada que o deixe vislumbrar ainda nos rostos saciados e curiosos das multidões que vagam por Xangai sem parar, arrastadas para as cansativas liturgias neo-consumistas da megalópole que não conhece repouso. Talvez até carreguem a cruz nos ombros, para imitar algum rapper local. Mas certamente não sabem nada das jaculatórias em latim cantadas nos campos de concentração, da Associação Patriótica, do governo espião, nem muito menos de vinte anos de rancores fraternais entre os cristãos “clandestinos” e os das igrejas “abertas”.
Teresa também não sabia nada disso. Quando era menina, em Pequim, seus pais, funcionários comunistas, certamente não lhe falaram dessas coisas. Mesmo porque nunca estavam com ela, ocupados como estavam com sua carreira política na Mongólia. Depois, ela encontrou uma amiga cristã, começou a freqüentar as igrejas, recebeu o batismo aos vinte e cinco anos. Conta que quando lhe perguntaram que nome cristão iria escolher, respondeu que queria o da santa mais graciosa. “A madrinha me olhou torto, mas depois me deu de presente um livro com a vida de Teresa de Lisieux... Quando fui para o exterior, um padre estrangeiro me perguntou se eu fazia parte da Igreja ‘subterrânea’. Eu não entendia do que ele estava falando. Respondi que não conhecia igrejas construídas debaixo da terra na China. Nunca as tinha visto nas estações do metrô...” Hoje ela se mexe com rapidez, seguindo o ritmo neo-hedonista de Xangai. Gosta de passar as tardes nos ateliês dos artistas, ou de descobrir novos restaurantes para ir com os amigos. Mas é justamente ela quem está desenhando as cenas do Evangelho e os símbolos chineses nos vitrais da Catedral de Zikawei. As mesmas há anos reduzidas a pedaços pelas Guardas Vermelhas.Os seminaristas, os jovens padres e as religiosas que se encontram na paróquia de São Pedro, antes de se espalhar por toda Xangai para dar os cursos de catecismo de verão, parecem também não esperar demais das imaginárias conquistas cristãs que deveriam encontrar campo livre no deserto espiritual das megalópoles chinesas. Mas também não maldizem o consumismo satisfeito e em nada desesperado de seus contemporâneos. “Este é o tempo que nos cabe”, diz, abrindo os braços, Anthony Zhao, que está terminando o curso de teologia no seminário de Xexan e acompanhou, no início de julho, o retiro de quatro dias organizado pela diocese para estudar os métodos “para comunicar de maneira atraente a fé às crianças, aos jovens e aos adultos aos quais iremos dar catecismo”. Ele sabe muito bem que, como já acontece aos pobres coitados que testemunham Jesus Cristo nos campos de trabalho forçado, não serão os bons propósitos e os equilibrados intuitos humanos que farão brotar o início da fé ou manterão a perseverança. Afinal, na China, como em qualquer parte, até hoje o pequeno resto daqueles que trazem o nome de Cristo é feito de gente indefesa protegida por um Outro.Esse talvez seja também o consolo do novo bispo, Joseph Xing, quando imagina os anos de aventura que o aguardam: não serão suas habilidades ou sua aptidão, nem seus erros ou seus limites que decidirão se e como a semente de letícia cristã espalhada pela terra chinesa, depois de ter dado frutos até mesmo nas tempestades da perseguição, vai secar ou poderá milagrosamente pegar em cada um dos corações ocupados de homens e mulheres de sua imensa cidade cheia de luzes.