Pacem in terris e ação política
Discurso do senador Giulio Andreotti no Congresso “Quarenta anos depois da Pacem in terris”: os novos sinais dos tempos, Pontifícia Universidade Lateranense, Roma, 11 de abril de 2003
Giulio Andreotti

João XXIII lendo uma radiomensagem em 1962
Começo a partir dos anos do governo pós-guerra de Alcide De Gasperi. Na Itália pesava muito a herança da guerra “fascista” e, apesar da participação do exército italiano ao lado dos aliados, poucas semanas depois da publicação do armistício (o cemitério de Montelungo na planície de Cassino faz-nos lembrar disso), estávamos circundados por um gélido isolamento. As portas da ONU (a nova Sociedade das Nações) nos seriam abertas somente em 1955, embora tivéssemos aderido à Aliança Atlântica já em 1949 depois de uma corajosa batalha parlamentar interna, na qual – aqui se coloca a minha primeira “recordação” nesta gratificadora participação no Congresso promovido pelo monsenhor Fisichella – além da hostilidade da oposição socialista e comunista, teve-se que recompor delicados contrastes na maioria. O artigo 11 da Constituição, que repudia a guerra, tinha sido recebido com entusiasmo, na onda da tradição religiosa popular que esconjura nas suas orações tanto a guerra como a peste e a fome. A idéia de um pacto militar não era familiar nos ambientes católicos, mesmo prescindindo da não branda desconfiança para com a propaganda pelo eixo Roma-Berlim-Tóquio e arredores. Convencer que somente através de um importante acordo armado entre os dois lados do Atlântico podia-se bloquear o expansionismo dos soviéticos não era fácil. E mesmo dentro da Democracia Cristã eram muitas as perplexidades e até mesmo as aversões em pessoas espiritualmente exemplares como Igino Giordani.
Uma iniciativa esclarecedora feita pelo cardeal Spellman sobre alguns bispos italianos não tinha sido suficiente. Lembro que o arcebispo de Nova York realizara a partir de 1943 uma preciosa ação pró-italiana junto ao Departamento de Estado. Porém seria preciso que Pio XII em pessoa fosse conquistado pela idéia da aliança defensiva.
Creio que tenha sido monsenhor Montini a dar uma preciosa sugestão a De Gasperi: fazer com que o embaixador italiano em Washington fosse recebido pelo Papa, pois conhecia profundamente toda a temática, inclusive as dificuldades do Congresso americano, peåas recorrentes desconfianças em assumir compromissos externos: lembramos aqui do conhecido isolacionismo que, no seu tempo, tinha desautorizado o presidente Wilson, impedindo a adesão dos Estados Unidos à Sociedade das Nações.
No seu livro, Dieci anni tra Roma e Washington, o embaixador Alberto Tarchiani refere o seguinte sobre a audiência: “Numa viagem minha à Itália – no verão de 1948 – foi-me dito, no Palácio do Governo, que uma das razões da vacilação governamental era o parecer do Vaticano, contrário à nossa entrada no Bloco Atlântico. Pensei que era o caso de ouvir diretamente a opinião do Papa Pio XII, se tivesse a gentileza e a confiança de me fazer entender. Em 8 de setembro fui recebido em Castel Gandolfo e pudemos conversar, um caso inusual, de modo benevolente, por 40 minutos com o Pontífice. Não conto o que conversamos, mas posso confirmar que o Santo Padre, mesmo inteiramente fiel à doutrina da fraternidade e da paz no mundo, era absolutamente contrário à idéia de que a Itália, em caso de guerra, tivesse que passar – por incapacidade de defender-se – “para a cortina de ferro”. Repito isso porque era uma aspiração óbvia, de resto resultante de muitos atos públicos e mensagens oficiais e oficiosas do Pontífice e da Santa Sé. Quando comuniquei a De Gasperi sobre o estado de ânimo do Papa, disse-me para que não duvidasse, pois sabia o quanto eram claras e decididas as suas opiniões. Portanto deste modo esvai-se a abusiva lenda de que o Santo Padre se opusesse a formas mais adequadas e eficazes para a defesa da Itália, e também, implicitamente, da Igreja”.
Até aqui a versão, digamos, oficial.
Daquilo que lembro, não houve notícia oficial sobre a audiência, mas no dia seguinte o jornal L’Osservatore Romano dedicava a primeira página a uma ampla reportagem sobre as desordens que estavam acontecendo na zona vermelha de Berlim. As recordações que estas notícias germânicas poderiam causar em Pio XII não é difícil de imaginar.
Todavia, a audiência produziu um resultado decisivo. Tarchiani apresentara ao Santo Padre os termos exatos do problema: a Europa livre, sozinha, não tinha condições de poder enfrentar militarmente a União Soviética; que em caso de ataque podia também contar com a cooperação (ou ao menos com a... não beligerância) dos fortes partidos comunistas ocidentais. A defenestração – termo macabrosamente exato – do governo democrático tchecoslovaco comprovava que a desconfiança era necessária.
As instruções que seguiram produziram um efeito imediato. O Papa ficou impressionado com a lucidez da análise do embaixador Tarchiani, por nada clerical, e da inelutabilidade do remédio defensivoG Que fosse defensiva a aliança euro-americana tinha-se plena certeza.
Nos nossos grupos parlamentares – Senado e Câmara dos Deputados – o encaminhamento a De Gasperi, antes com tantos obstáculos, tornou-se até mesmo agilizado.
No dia da queda do Muro de Berlim e, logo depois, o desmantelamento do império soviético, sem que tivesse tido um tiro de canhão e sem haver a menor tentativa de agressão por parte da Otan, mesmo com muitas provocações (lembramos das crises de Berlim), o nosso pensamento, que vivemos os acontecimentos de 1949, foi para o Papa Pio XII e para o monsenhor Montini, futuro Paulo VI, do qual encontramos mais tarde marcas de grande importância, uma em particular, depois da sua elevação ao pontificado.
Enquanto celebramos a Pacem in terris e a iluminada e oportuna evocação desta feita pelo Papa na Mensagem de Ano Novo deste triste e atormentado 2003, parece-me obrigatório lembrar aqui do reiterado apoio que sempre nos foi dado pela Santa Sé na inspiração e elaboração de uma política externa estruturada rigorosamente na solidariedade e na paz
Monsenhor Montini, cuja amizade com Alcide De Gasperi é muito conhecida, compartilhou com o Presidente a paixão com o qual este trabalhara para dar organicidade, através do tratado de integração, à parte européia da defesa comum: a CED (Comunidade Européia de Defesa). Infelizmente a difícil situação interna da Itália e a derrota do último governo De Gasperi em julho de 1953 impediram a ratificação italiana deste Tratado, que mais tarde foi definitivamente reprovado pela França poucos dias depois da morte do nosso presidente em agosto de 1954.Quando reiniciaram os contatos para retomar, desta vez em âmbito econômico, um plano de acordos comunitários europeus, monsenhor Montini – falando com Aldo Moro, com Taviani e com outros de nós ex-fucini [Fuci: Federação universitária dos católicos italianos] com os quais conservava uma relação iluminante – sustentou com vigor que não se podia limitar a acordos mercantis; mas se devia criar uma comunidade política e cultural. E desde o início, em 1957, da Comunidade Econômica Européia esta chamada foi constante; que de resto, representaria o fulcro do apoio da Santa Sé à Europa unida, manifestado repetidamente pelos Papas, antes e depois de Paulo VI: mas de modo muito particular por Paulo VI, como foi lembrado em um inesquecível congresso realizado sobre este tema em Milão; e como foi documentado pelo monsenhor Pasquale Macchi nas suas pontuais publicações biográficas.
Mas há um outro ponto firme da nossa política exterior, ligado ainda mais estreitamente com a ação vaticana. Refiro-me ao Ato para a Cooperação e a Segurança Européia, assinado em Helsinque em 1975, por todos os Estados do nosso velho continente (com exceção da Albânia) e inclusive com a Santa Sé, representada pelo cardeal Agostino Casaroli.
A primeira idéia foi lançada alguns anos antes por Moscou com a intenção primária de dar uma versão definitiva às fronteiras fixadas depois da Segunda Guerra. No início houve – próprio ratione originis – uma difusa desconfiança. Porém, em 1972, quando estive em visita de governo na União Soviética, Gromyko em particular, falara-me com muita objetividade dando-me elementos de reflexão, que pude aprofundar pouco depois com o presidente Nixon. Richard Niýon foi um grande presidente dos Estados Unidos, que atuou o reconhecimento da China mantendo relações de distensão com Moscou. Neste clima foi acolhida a idéia de um protocolo euro-americano, que não era um verdadeiro e próprio tratado, mas uma solene declaração de intenções que, como disse, foi assinada na capital finlandesa em 1975.
Nixon tinha sido afastado em agosto de 1974, mas naquele ponto a posição americana sobre o tema da Csce já estava determinada; e sob a presidência de Gerald Ford o anel de conjunção com a Europa foi concretizado. Seria George Bush a assinar em 1990 a transformação da Csce em Osce.
ýldo Moro, que em 1975 assinara tanto na condição de Primeiro-Ministro italiano como de Presidente de turno da Comunidade Européia, respondeu claramente aos que criticavam pela considerada contradição da posição soviética; pois, justamente naqueles dias, tinham reconfirmado a soberania limitada dos países do Pacto de Varsóvia. Breznev passará – disse Moro – e a semente que plantamos dará seus frutos.
Com efeito, vinte e cinco anos depois – com Breznev que se foi desta terra, o Muro de Berlim que foi derrubado e com o império do Leste desmantelado – em novembro de 1990 em Paris o compromisso de cooperação foi reconfirmado recebendo a forma de um Tratado, denominado: Carta da nova Europa. Infelizmente não estavam presentes nem Aldo Moro nem Paulo VI que no momento de Helsinque tinha contato direto com Aldo e que sabemos, teve que fazer uma ação de convencimento também sobre alguns componentes da Cúria¿Romana. Um dado curioso é que houve apenas um personagem que assinou tanto em Helsinque como em Paris: o cardeal Casaroli, acompanhado nos dois encontros pelo monsenhor Achille Silvestrini.
No plano inter-governamental a atividade desta Organização não foi notável, mas a relativa assembléia parlamentar funcionou e funciona até agora muito bem. Conta com uma atenta participação dos deputados e senadores americanos que em outras sedes, como a União Interparlamentar, não existe mais. Creio que num momento de profunda crise das organizações internacionais, da perda de prestígio da Organização das Nações Unidas, das diferenças políticas dentro da União Européia (em dramático contraste com o alargamento), de difícil diálogo com os Estados Unidos da América; creio que uma onda de motivações que possa dar novamente (ou talvez que dê) força à Osce poderia representar – contra toda tendência desagregadora e de isolamento entre continentes – a solução para fazer com que seja dado à humanidade um caminho novo, que certamente jamais poderá ser a guerra construi-lo.
Uma quarta direção adotada e cultivada pela Itália em constante harmonia e até mesmo sob estímulo vaticano refere-se às ajudas aos países em desenvolvimento e em particular o cancelamento de suas dívidas. Sobre este tema João Paulo II interveio com vigor várias vezes, inclusive com exortação aos parlamentares e administradores públicos reunidos para o Jubileu do ano 2000. Infelizmente o empenho adotado, mesmo em sedes plurinacionais, de destinar aos países pobres uma cota, mesmo pequena, do produto interno bruto não foi realizado senão em medidas mínimas. Porém, recentemente foi reconfirmado tanto no nosso Parlamento como em sedes internacionais: permanece um ponto firme na salvaguarda da paz que não pode ser senão obra de justiça.
No total a cota italiana chegou a uma média de 19% das dívidas totais dos países beneficiários. De modo específico, a Itália anulou 78% da dívida de Uganda, 28% da Etiópia e 23% da dívida de Moçambique. Com três acordos (Tanzânia, Burkina Faso e Mauritânia) chegou-se o cancelamento total.
Mas não se pode esquecer que quando o Papa solicita estas intervenções está moralmente apoiado pelas contribuições que as missões católicas deram e dão em todos os continentes ao esforço de crescimento de tantos povos deserdados; muitas vezes pagando com a própria vida.
Alguns anos atrás, reunindo os ministros da saúde da América Latina para assinar um programa italiano de ajuda, convidamos o Bispo de Recife, D. Helder Câmara para participar como consulente. Causou profunda emoção, formulando uma oração a Deus, que criou o mundo e não um primeiro, um segundo e um terceiro mundo.
Permitam-me, entre parênteses, um relevo, por assim dizer terminológico. No início de duas grandes encíclicas encontra-se o mesmo vocábulo. A Rerum novarum de Leão XIII fala da “ardente cupidigia de coisas novas que começou a agitar os povos”. A Pacem in terris inicia com: “Todos os homens que em todos os tempos ‘cupidissime appetiverunt pacem’”. Merece uma reflexão.
Conseguirão as novas gerações orientar na direção certa sua cupiditas?
Cerca de treze anos atrás tive a honra de falar num Congresso em Bergamo sobre: “A paz hoje: aspiração dos povos responsabilidade dos governos”. Quero reler a conclusão.
“Reunidos aqui pelo centenário do nascimento de Angelo Roncalli, no momento em que o coração de todos os homens está turbado; (e algumas vezes sentir medo não é sintoma de vileza) sentimos descer sobre nós o seu aplacante otimismo, a sua confiança ancorada no Único que não treme e não trai. E espontaneamente vêm-nos aos lábios a oração: fica com nós, Papa João, porque é noite, e é uma noite tão escura”.
São conclusões que, infelizmente, mantêm uma dolorosa atualidade.
Sem nenhuma confusão entre o nosso âmbito civil e a pertença à comunidade cristã, creio que não haja alternativas válidas para absolver aos nossos deveres políticos além de um inflexível serviço à paz para todas as gentes a ser construída, como diz a encíclica que estamos recordando: na verdade, na justiça, na caridade e na liberdade.
Os papas não dispõem de tropas, mas têm legiões de caridade operante e, de modo mais geral, podem armar os espíritos. Como está fazendo com profundidade extraordinária João Paulo II, que se mostra como o único ponto firme em um mundo desorientado e perdido. Que Jesus ajude o seu Vigário na terra!