Nomen omen
Breve resenha dos nove primeiros papas que adotaram o nome Bento. De Bento I (575-579), que o assumiu poucos anos depois da morte do santo de Núrsia, até Bento IX. Foram todos romanos
de Lorenzo Cappelletti

À esquerda, a nave central do Domo de Sena, encimada por um peitoril com os bustos dos sumos pontífices; nos requadros, os bustos de alguns papas de nome Bento
Justamente por isso, porém, é preciso tomar cuidado para não pensar que um nome estabelece uma continuidade de direção e orientação. Se esse critério fosse aplicado, chegaríamos a resultados não históricos, mas cabalísticos. Mesmo assim, submetido a uma simples verificação histórica, já o próprio nome Bento diz alguma coisa. Em primeiro lugar porque, não aparecendo antes do último quarto do século VI, quando foi assumido pela primeira vez, em 575, ele é adotado evidentemente em referência a São Bento de Núrsia, que morreu por volta de 547. Em segundo lugar, porque se pode verificar que antes da “época nova”, ou seja, do princípio da Idade Moderna, ele está ligado exclusivamente a representantes do clero romano, entre coisas, geralmente leais aos imperadores; e freqüentemente ligado a homens de valor, ainda que o único dos papas que traz esse nome qualificado como santo seja o segundo Bento, se excluirmos o bem-aventurado Bento XI (1303-1304), que se posiciona justamente no início da Idade Moderna, como sucessor imediato do papa Bonifácio VIII.

O segundo Bento, mais de um século depois do primeiro, não reinou nem um ano completo (de junho de 684 a maio de 685): o tempo que se esperou entre a sua eleição e a chegada da confirmação de Bizâncio (de 3 de julho de 683 a 26 de junho de 684) é maior do que a duração de seu pontificado efetivo. Justamente por isso, Bento II pediu e obteve do imperador bizantino, com o qual teve depois ótimas relações, que a eleição do papa pudesse ser confirmada pelo exarca de Ravena, o plenipotenciário bizantino para a Itália.
Bento II não apenas foi “natione romanus”, mas, segundo o Liber Pontificalis, fez toda a sua carreira dentro do clero romano, desde “coroinha”: a carreira regular que, como escreve F. Baix no Dictionnaire d’Histoire et de Géographie ecclésiastique (DHGE VIII, col. 10), “era o ideal jurídico para o clero romano”. E foi fazendo essa carreira que ele se fez santo.

A notícia biográfica que o Liber Pontificalis dedica a Bento III (855-858) é extraordinariamente ampla, percorrendo toda a sua combatida ascensão ao trono. Louis Duchesne, retomando essa notícia, escreve: “Dois partidos estavam à frente; o partido do Papa defunto, contrário ao sobrecarregamento do protetorado, e o partido imperial. Este último tinha como candidato Anastácio” (I primi tempi dello Stato pontificio, p. 100). O bibliotecário Anastácio foi um personagem controverso e influente nas décadas anteriores e, mais ainda, nas subseqüentes ao pontificado de Bento III. Anastácio havia sido excomungado por Leão IV, pois aspirava exageradamente ao pontificado. Agora, fortalecido por sua bagagem cultural e sobretudo pelo apoio do imperador carolíngio Ludovico II, conseguiria assentar-se por alguns dias no Latrão, não obstante Bento já tivesse sido canonicamente eleito, mas não ainda consagrado. Ao final, Bento saiu-se vitorioso, pois, de um lado, o clero e o povo romano reunido em Santa Maria Maior o elegeu mais uma vez, e, de outro, isso aconteceu com o beneplácito do imperador. As vitórias esmagadoras, ultrapassadas as aparências, nem sempre são vitórias. Só o são aquelas que nascem de compromissos permitidos por circunstâncias favoráveis, e tais vitórias, entre outras coisas, não esmagam ninguém. É interessante o que F. Baix escreve a propósito disso, comentando a notícia do Liber pontificalis: “Todos, amigos e inimigos, e os inimigos com maior zelo que os amigos, atiraram-se aos pés de Bento, tocados pela oportunidade da graça” (DHGE VIII, col. 16). Com o próprio Anastácio, Bento lidou com magnanimidade.

No século X, chegaram a ser quatro os papas Bento, que reinaram com certa dificuldade, tal a dureza daquele século, se bem que às vezes suas crueldades sejam enfatizadas até demais. Todos os quatro foram romanos. Bento IV (900-903) pontificou em anos marcados pela luta entre formosianos e antiformosianos, ou seja, entre aqueles que pretendiam que não fosse possível invalidar os atos do papa Formoso, em particular as ordenações in sacris, e aqueles que, por sua vez, queriam até apagar a memória daquele Papa. Mas ninguém, nem mesmo o papa, pode dispor a seu bel-prazer dos sacramentos. Por mais que pudesse ser negativo o juízo sobre seu predecessor, como é que se poderiam cancelar ordenações sacerdotais e episcopais válidas? Bento, nesse sentido, era formosiano. Seu epitáfio louva também sua generosidade e bondade, em razão das quais, nele se lê, “sustentava as viúvas desvalidas e as criancinhas pobres como se fossem seus fi-lhos”.
Bento V, depois de apenas dois meses de pontificado (maio a ju-nho de 964), justamente porque romano e eleito pelos romanos em uma autonomia então impossível, foi declarado deposto no final de junho num Sínodo no Latrão presidido pelo papa Leão VIII, ao lado do imperador Otão I. O imperador saxão reivindicava o antigo direito imperial sobre a eleição pontifícia, que fora dos carolíngios e, ainda antes, dos imperadores bizantinos, e já o havia exercido, fazendo eleger Leão, justamente, no ano anterior, depois de ter deposto João XII. Assim, no final de 964, Bento foi conduzido ao território alemão por Otão. Ainda que já não como papa, foi acolhido com grande respeito em Hamburgo - não devemos pensar que se repetissem sempre situações próprias de grand guignol, só porque estamos na Alta Idade Média -, onde viveu exemplarmente, tanto que se pensou novamente nele como possível sucessor de seu concorrente Leão, quando da morte deste, em 965.

Alguns anos depois de Bento V, Bento VI (972-974), também romano, subiria ao trono de Pedro com base no acordo com o imperador Otão I, mas, morto este, o Papa, depois de encarcerado, seria estrangulado no Castelo Santo Ângelo. De fato, novos poderes locais, representados pelos Crescêncios, seguramente apoiados por Bizâncio, no momento de passagem entre Otão I e Otão II, pretendiam retomar Roma e o papado. Bento VI “é substituído por um papa ‘nacional’”, escreve Duchesne (I primi tempi dello Stato pontificio, p. 150), “o diácono Francone, filho de Ferruccio”, “romano de Roma”, mas nem por isso necessariamente parte da cidadania de Deus presente naquele momento em Roma. Santo Agostinho docet.
Para os primeiros seis Bento, portanto, pontificados breves, de um, dois ou três anos, no máximo. Se isso por si só não diz nada, pois eram freqüentes os pontificados breves na Idade Média, é significativo, no entanto, que o primeiro Bento a registrar um pontificado de duração considerável tenha sido Bento VII. De fato, esse pontificado, não por acaso, foi marcado por uma estreita e confiante colaboração com o imperador Otão II, cujo reinado coincide exatamente com o pontificado de Bento VII (973-983). É interessante que, durante o seu pontificado, Bento VII tenha favorecido na colina do Aventino a formação de uma realidade monástica sob o patrocínio dos santos Bonifácio e Aléxis, constituída por monges beneditinos e basilianos, ou seja, latinos e gregos, testemunhando que no final do século X, em Roma, o Ocidente cristão ainda não era estra-nho ao Oriente. Entre outras coisas, é aí que vai morrer, depois de ter assumido o hábito monástico (“ut tandem scelerum veniam mereatur habere”, lê-se em seu epitáfio), aquele Crescêncio que fora líder da insurreição “nacional” entre as décadas de 970 e 980. A cidadania de Deus pode sempre ser readquirida.
Com Bento VIII (1012-1024), já se havia transposto o fatídico limiar do ano mil, em torno do qual pontificara a figura em certos aspectos inquietante de Silvestre II. Bento VIII, mesmo sendo também da província romana (dos famigerados, nem sempre com razão, Tuscolani), não esteve sujeito a interesses particulares e deu início a uma relação de paz e colaboração com a autoridade imperial, por sua vez capaz de não fazer valerem razões partidárias. Teve, assim, um pontificado ainda mais longo do que o do Bento anterior e, coincidência também neste caso não privada de significado, o reinado do imperador Henrique II, com o qual o Papa colaborou frutuosamente para a reforma da Igreja, terminou no mesmo 1024, poucos meses depois da morte do Papa. Bento, quase para consolidar a reforma em nível temporal, procurou também a aliança militar com o imperador, visando a submissão do sul da Itália. Mas nisso seus projetos, como se daria depois também com outros santos papas, não tiveram grande sucesso. Um sinal?
Chegamos a Bento IX, cuja história é, de todos os primeiros Bento, a mais complexa. De fato, se nos ativermos ao Anuário pontifício, o próprio Bento IX foi papa três vezes. Tentemos entender.
Ele também se chamava Teofilato e era membro da família dos Tuscolani, exatamente como o tio, Bento VIII. Foi eleito em 1032. Era muito jovem, mas provavelmente não uma criancinha, como pretendem fontes que o descrevem como uma escandalosa marionete. Ainda que a escolha tenha recaído sobre ele também por seu parentesco com uma linhagem poderosa e não desagradável ao imperador (fato, de resto, que aconteceu com freqüência, para não dizer sempre, na história do pontificado, e que, portanto, de per si, não nos deve admirar), “soube guiar com mão hábil a Igreja durante os [primeiros!] doze anos de seu pontificado”. Entre outras coisas, foi capaz de trabalhar no território ao sul de Roma de modo mais eficaz que seus predecessores, a ponto de apoiar “o mosteiro de Monte Cassino, restaurado na sua independência”, e de “lançar os fundamentos para uma vasta reorganização eclesiástica”. Manteve “os contatos com os círculos reformadores” e conquistou “grande prestígio” na França, onde trabalhou pela paz, estendendo a chamada tregua Dei, ou seja, a suspensão, em certos períodos do ano, de qualquer atividade bélica, o que havia sido uma das mais prudentes iniciativas de Cluny. (Todas as citações provêm do Dizionario storico del papato, já citado, I, pp. 159-160; mas qualquer texto que considere com atenção o conjunto das fontes não pode deixar de escrever o mesmo).

Com tudo isso, Bento IX, Silvestre III e Gregório VI, cujas datas de pontificado se entrecruzam mais do que se sucedem, constam tranqüilamente da lista dos papas, e Bento IX ali aparece três vezes, pois, depois da morte de Clemente II, em 9 de outubro de 1047, foi ajudado pela segunda vez pelos seus a retomar o trono em Roma. Foi necessário um outro papa alemão, Dâmaso II, e depois ainda outro, São Leão IX, para que Bento, afinal, aceitasse retirar-se para o mosteiro de Grottaferrata, onde terminou seus dias entre 1055 e 1056.
Resta dizer algo sobre Bento X. Ele também era romano, talvez sobrinho de Bento IX, e, eleito pelos romanos, pontificou de fato entre abril e dezembro de 1058. No entanto, está oficialmente entre os antipapas, em razão do juízo solene de deposição que sobre ele pronunciou seu sucessor, Nicolau II, em 1060. Apesar disso, Bento X teve uma importante função maiêutica, pois seu pontificado determinou a opção, que depois se revelaria definitiva, de reservar a eleição pontifícia aos cardeais: “Seu pontificado [...] deu a oportunidade para o decreto sobre a eleição pontifícia de 1059, por meio da qual o grupo de reformadores assegurou para si uma influência decisiva sobre a própria eleição e se preocupou sobretudo em decretar legítima a eleição de Nicolau II, realizada de maneira que bem dificilmente poderia ser considerada canônica, se consideradas as regras em uso anteriormente” (Dizionario del papato, I, 161).
Quase como ressarcimento póstumo, a série dos papas Bento leva em consideração Bento X. De fato, o papa que, dois séculos e meio depois, retomaria aquele nome é por todos lembrado como Bento XI, o bem-aventurado Bento XI do qual falaremos na próxima etapa.