As palavras do cardeal de Honduras na apresentação do livro de Guzmán Carriquiry
A nossa aposta
“A vocação da América Latina não é a de ser um elemento do livre-comércio norte-americano, mas de ser aberta ao mundo, contribuindo para que aflore um mundo multipolar”. As palavras do cardeal de Honduras na apresentação do livro de Guzmán Carriquiry
do cardeal Oscar A. Rodríguez Maradiaga

Mãe e filha trabalhando nos campos de Guamote o Equador
Eis a boa notícia que hoje nos chega das mãos de um latino-americano apaixonado pelo continente da esperança: o professor Guzmán Carriquiry Lecour, que me honra pelo convite de estar aqui presente na apresentação de seu novo livro.
Dois anos atrás, na assembléia ordinária do Celam (Conselho Episcopal da América Latina), celebrada depois de quase dez anos da IV Conferência Geral do Episcopado de Santo Domingo, falou-se da possibilidade de solicitar ao Santo Padre uma quinta conferência pelo 50 aniversário deste importante organismo eclesial, a ser realizada em 2005. Com efeito, a realidade transformou-se tanto nesta década, que se sentiu a necessidade de uma atualização clara e sincera para enfrentar os novos desafios, levando em conta a perspectiva do duc in altum lançada na carta apostólica Novo millennio ineunte.
Não tenho qualquer dúvida em apresentar este livro como um ótimo instrumentum laboris para cada um dos bispos que vivem sua missão pastoral e querem responder com a parresía da Igreja de Jesus aos novos sinais dos tempos.
O professor Carriquiry não é apenas um mestre experto, mas um navegador exemplar desde 1972, quando, muito jovem, chegou à Cidade Eterna para realizar o seu trabalho junto ao Pontifício Conselho para os Leigos, cheio de entusiasmo e de amor pela Igreja.
Conheci-o antes pelos seus artigos na Vísperaü e, depois da Conferência de Puebla, conheci-o pessoalmente em San José de Costa Rica. É um autêntico orgulho para a Igreja da América Latina que um dos seus leigos ou melhor, dois mais quatro leigos, sua amadíssima esposa e seus quatro filhos sirva à Igreja no importante dicastério de animação laica. Isso se reflete no quinto capítulo deste livro, onde se analisa a Igreja como sujeito global. A sua análise do Concílio Vaticano II como o último Conselho Europeu e o primeiro mundial não é simplesmente um estudo premeditado. Cada página resume vida, amor, experiência vivida. Não é um observador distante e frio, mas alguém que pagou pessoalmente na luta silenciosa pela fé, a paz e a justiça. Se tivéssemos que colocar um subtítulo a este livro, sem hesitações, eu colocaria: por parte de quem ama a Igreja apaixonadamente.
Temas delicados como a Alca (Área de Livre Comércio Americano), na perspectiva da integração do continente começando pelo Mercosul, são tratados com franqueza e realismo: "A América Latina não pode continuar a se permitir a ostentação privilegiada, irres_onsável e escandalosa de minorias oligárquicas parasitas, nem as meras formas especuladoras da colonização financeira sem nenhum compromisso real com os povos e com o destino das nações" (pág. 43). É urgente uma revisão da cooperação internacional nos termos de uma nova cultura da solidariedade.
Não se pode pensar em um modelo "arquipélago" que se poderia realizar literalmente como um complexo de pequenas ilhas de opulentos dentro de um oceano de pobreza.
Certamente não queremos ser nem satélite nem condenados ao anacronismo ideológico.
_ rica e atualizada bibliografia consultada abre, também ao pesquisador interessado, fecundos horizontes. Com efeito, professor, creio que de agora em diante nenhum voluntário enviado à América Latina poderá deixar de ler este livro! Enquanto o lia pensava em fazer com que meus alunos seminaristas o estudassem para o exame!
Hoje o mundo é mais rico, mas as desigualdades em nível mundial aumentaram de modo escandaloso e, como diz o autor, as maiores desigualdades sociais estão na América Latina. Não é suficiente medir a pobreza. É preciso medir a profundidade da pobreza. Considero, mais uma vez, que as armas de destruição de massa já sejam usadas há muitos anos, e não será a guerra atual [no Iraque, ndr] que poderá acabar com essas armas. As verdadeiras armas de destruição de massa são, com efeito, a pobreza e a injustiça social.
O olhar para a África e para a Ásia não é comum às análises que geralmente se fazem em muitos estudos sobre o continente, e considero que aqui se tenha sido voltado numa perspectiva interessante.
Mas o capítulo "Paz estadunidense ou paz universal" parece-me quase profético no contexto da ordem unipolar criado na ausência de um contrapeso. A vocação da América Latina não é a de ser uma parte do Nafta [Tratado do livre-comércio norte-americano, ndr] mas, ao invés, é a de estar presente no mundo, aberta ao mundo, contribuindo para aflorar um mundo multipolar.
A tragédia de 11 de setembro deixou uma zona de Nova York com um nome atormentado: Ground zero, terra zero. Por que apostar na América Latina em tempos em que aparece marginalizada nos cenários mundiais com modelos esgotados e com horizontes incertos? Está sendo inaugurado o terceiro milênio na América Latina, recomeça-se "da página zero". Com palavras do autor: "É hora de recapitular, de pensar, de apostar com racionalidade, realismo e esperança!".
Para concluir, gostaria de evidenciar que o professor Carriquiry fez um maravilhoso trabalho de prosseguimento da exortação pós-sinodal Ecclesia in America. Em todo o livro os Estados Unidos e o Canadá não são aqueles "vizinhos distantes" de um tempo. Agora, como sempre auspiciava o Santo Padre, somos cada vez mais uma só América e aos desafios comuns procura-se responder unidos. Como por exemplo no que se refere à missionariedade dos hispânicos nas grandes nações do Norte.