Não mandem esses três camponeses para a morte
Fabianus Tibo, Dominggus da Silva e Marianus Riwu foram condenados à morte sob a acusação de terem sido os cabeças dos conflitos de fundo religioso que aconteceram na região de Poso entre 1998 e 2001. O bispo de Manado os defende. E não é o único
de Davide Malacaria

Dom Joseph Theodorus Suwatan, bispo de Manado
“O processo foi apressado”, diz padre John Mangkey, secretário-geral dos Missionários do Sagrado Coração de Jesus (MSC), originário de Manado e residente em Roma: “Queriam encontrar culpados logo, para encerrar rapidamente o episódio, o que resultou num processo sumário. É impossível que aqueles três sejam os ‘cabeças’ do conflito, ou que por meio de seus crimes quisessem dar início a um embate religioso – pois foi por isso que foram condenados. São três pobres camponeses... Não digo que sejam completamente alheios à violência que aconteceu naquele período trágico: eles tinham vindo do campo para defender a igreja de Santa Teresa e o convento das ursulinas, e participaram dos conflitos que ocorreram em seguida. Mas ações desse tipo, infelizmente, aconteciam por toda a parte naquele momento. A pena de morte é realmente excessiva...”. Mesmo porque Tibo e seus companheiros foram os únicos que acabaram processados por aqueles trágicos acontecimentos...
Esperava-se que o presidente da República, Susilo Bambang Yudhoyono, pudesse resolver a questão concedendo-lhes um indulto, mas isso não aconteceu. Dom Suwatan, bispo de Manado, diocese que engloba a atormentada região de Poso, fez diversos apelos públicos em favor dos três condenados. Ele explica: “Tibo e seus companheiros, originários da ilha de Flores, aderiram ao programa governamental que estimula a emigração de camponeses de regiões superpovoadas para outras. Vieram para Poso em busca de uma vida mais condigna. E é só isso. Como é que camponeses analfabetos podem ser os inspiradores dos massacres? Além do mais, os católicos de Poso foram vítimas. Todos os prédios católicos foram incendiados e destruídos durante aquele conflito: a igreja de Santa Teresa, o presbitério, o convento das ursulinas, as escolas e os alojamentos dos estudantes, a sala paroquial. Não sobrou nada...”. Mas o prelado não sublinha essas coisas para apontar o dedo acusador contra os islâmicos. “É uma questão de justiça”, explica, agora que, com a aproximação do fuzilamento, seus apelos se fizeram mais urgentes. A propósito disso, padre Mangkey acentua um pormenor que veio à tona durante o processo: Tibo e seus companheiros disseram aos investigadores que outras pessoas haviam tido um papel muito mais relevante do que o deles em toda aquela violência. E deram os nomes de dezesseis pessoas. Mas ninguém nunca quis aprofundar aquelas revelações.
Em defesa dos três camponeses, a diocese de Manado procurou, e encontrou, ajuda também no âmbito não cristão. Na conclusão da Sagki (grande reunião nacional da Igreja indonésia), que ocorreu em novembro passado, estavam presentes os chefes das diversas comunidades religiosas do País, inclusive muçulmanos. Foi nessa ocasião, explica dom Suwatan, que padre Jimmy Tumbelaka, pároco de Santa Teresa, encontrou Hasyim Muzadi, presidente da Nahdlatul Ulama, a mais importante organização muçulmana de massa do País, para falar do processo de Tibo e seus companheiros. Um encontro positivo, já que o sacerdote católico relatou às agências de notícia que o líder islâmico não fez objeções a um eventual apelo internacional em favor dos três condenados. O prelado de Manado lembra que todos os líderes religiosos presentes aderiram às conclusões daquela assembléia, sintetizadas nesta frase: “Levantar-se e trabalhar para construir um novo habitus, por uma nova moralidade pública da nossa nação”. Esse fato testemunha como o desejo de paz e convivência está difundido entre todas as comunidades religiosas. Dom Suwatan continua: “Em Poso, não houve um conflito entre religiões. É a política que manipula a religião e a usa para seus fins... Há quem tenha interesse em alimentar esse conflitos, quem tire proveito dessas tragédias como oportunidades de ganhos fáceis. Para dar apenas um exemplo: o governo central destinou fundos em favor das vítimas do conflito. O velho regente de Poso, equivalente ao prefeito, e outros membros da administração local, foram acusados de ter subtraído uma parte daquele dinheiro e agora estão em Jacarta, onde sua posição está sendo examinada pelos investigadores”. Padre Mangkey vai na mesma linha; ele, que, de Roma, acompanha com preocupação o desenrolar da situação na pátria-mãe, fala de comunidades locais (muçulmanas e cristãs) unidas na tentativa de repelir as infiltrações integristas que vêm de fora. E lembra como, nas Molucas, os muçulmanos ajudam na reconstrução das igrejas cristãs destruídas. E não é só isso: a Nahdlatul Ulama, particularmente na ilha de Java, organiza há anos rondas de voluntários para vigiar as igrejas cristãs por ocasião do Natal. Mesmo assim, há quem ainda procure de todas as formas incendiar este imenso Estado-arquipélago formado por uma miríade de ilhas (no qual vive a mais populosa comunidade muçulmana do planeta), projetando e realizando atentados e conflitos, com danos para a minoria cristã. Foi particularmente cruel uma agressão que ocorreu em 29 de outubro passado, quando três estudantes cristãs foram mortas e decapitadas. O crime repercutiu amplamente também em jornais estrangeiros. Naquela circunstância, dom Suwatan disse: “Nós nos encontramos diante de uma estratégia do terror, que tem a intenção de chocar e provocar tensão justamente agora que as relações entre as comunidades cristãs e muçulmanas foram pacificadas”.

Uma manifestação pela paz nas ruas de Jacarta
O prelado indonésio informou também o Santo Padre sobre a questão. Mesmo porque sabe que Bento XVI acompanha com atenção o que acontece em seu país, tanto que, por ocasião do assassinato das três estudantes, enviou aos familiares das vítimas suas palavras de conforto. A Comunidade de Santo Egídio também se interessou pelo episódio, e em 19 de dezembro, ao lado de alguns expoentes muçulmanos indonésios, lançou um apelo em favor dos três condenados. Nesse meio tempo contam-se os dias que separam os três camponeses de Poso da execução, cuja data deve ser fixada para logo. Para Tibo e seus companheiros, o tempo se fez breve.